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garrafa ou lata... garrafa ou lata...

Uma das questões que mais dúvidas suscita em quem bebe habitualmente cerveja, é se haverá verdadeiramente diferença no sabor dum produto idêntico, caso ele venha em garrafa ou lata. Aliás, para sermos mais correctos, a desconfiança recai quase sempre sobre a lata e o efeito que esta poderá ter nas características naturais de uma cerveja. Mas será que deveremos ter esta reserva mental relativamente a uma embalagem tão moderna e mundialmente utilizada? É o que iremos tentar analisar neste texto.

Desde tempos ancestrais que o barril de madeira tem sido um companheiro inseparável de uma grande quantidade de bebidas alcoólicas e a cerveja não é uma excepção. Como exemplo, refira-se que quase toda a cerveja que se vendia no início do século XVI provinha de barril. Durante muitos séculos, os barris de madeira prevaleceram como a forma dominante de se guardar cerveja. No entanto, tal sistema só funcionava desde que a cerveja fosse vendida com alguma rapidez. De facto, após concluida, uma cerveja começa a sofrer diversas influências que ajudam à sua deterioração. Tal como outras bebidas e comida, os principais agentes nesse declínio de frescura são os micróbios e as bactérias, especialmente, e no caso concreto das cervejas, aqueles que produzem sabores azedos e a vinagre. Curiosamente, estes sabores eram tão comuns antes dos modernos processos de conservação que, em certos tipos de cerveja como as Lambic ou as Berliner Weiss, se tornaram numa parte integrante do estilo.

Para obviar a esse facto, já durante o século XX surgiram novos tipos de barris, nomeadamente de aço, aço inoxidável ou alumínio. Tais substâncias permitiam conservar um barril aberto por um período mais longo, ao mesmo tempo que reduziam a perda de gás e os efeitos nefastos dos microorganismos. Contudo, os barris eram pesados e de difícil manuseamento pelo que, bem antes do século XIX, já se utilizavam garrafas para guardar cerveja. A primeira referência a esse facto consta de um conto de Alexander Nowell, deão da catedral de São Paulo, em Inglaterra, entre 1560 e 1602. Nele se alude a história de uma garrafa de cerveja que foi esquecida e que, alguns dias mais tarde, quando encontrada e aberta, produziu um som similar ao de uma pistola.

No século XIX as garrafas já eram bastante populares. Tal foi fortemente potenciado pelas descobertas de Louis Pasteur no campo da fermentação, assim como pelas suas investigações no processo de aquecimento como forma de anular os microorganismos nocivos existentes dentro de uma garrafa selada. Esses conhecimentos revelaram-se tão importantes que, cerca de 1900 e anos seguintes, a pasteurização se tornou num procedimento rotineiro, fazendo parte do sistema de produção e engarrafamento automático. Não deixa de ser curioso que, actualmente, muitas cervejeiras optem por não pasteurizar os seus produtos, evitando gastos de certo modo avultados, antes optando por criar "cerveja viva", isto é, incluem na cerveja fermento (que não é morto pela pasteurização) e uma pequena porção de açucar não fermentado, o que origina uma refermentação em garrafa, facto que dá origem à formação de gás e que ajuda no combate à oxidação. Estes produtos são, em geral, de excelente qualidade, com um sabor muito natural e um carácter fresco e jovem, apesar de se correr o risco de uma rápida deterioração da bebida caso esta seja mal manuseada.

Como a tecnologia não pára, já no século XX surgiu um novo tipo de embalagem, fácil de manusear e de baixo custo de produção: as latas. Os primeiros exemplares apareceram na década de 30 do século passado e a sua ascensão foi meteórica, ao ponto de, em 1969, se terem vendido mais cervejas em lata do que em garrafa. Tal supremacia manteve-se até à actualidade e, só para deixar um exemplo, basta referir que 60% das cervejas que saem das fábricas norte-americanas são vendidas no formato de lata. Ou seja, em menos de um século, a lata tornou-se no formato preferido da indústria cervejeira. Esta opção terá começado em 1935, ano em que foi produzida a primeira cerveja em lata pela Krueger Brewing Co. de Newark-NJ. Já em 1959, a Coors introduziu a primeira lata de alumínio e, seis anos mais tarde, apareceria o famoso anel de abertura, invenção que propulsou definitivamente a lata para o número 1 do ranking de vendas.

   

Tal sucesso suscitou, como é natural, invejas e críticas. Aliás, o número de detractores cresceu de tal modo que ainda hoje subsistem dúvidas na qualidade da cerveja em lata. Uma das falhas que é apontada reside no facto do alumínio utilizado na fabricação das latas poder interferir no sabor da cerveja. Essa situação podia acontecer há alguns anos atrás, altura em que o alumínio estava em contacto directo com o líquido. Todavia, as latas actuais têm no seu interior uma protecção plástica baseada em água (que substituiu o plástico baseado em solventes da década de 80) que, colocada à prova em testes efectuados por entidades independentes, demonstrou não alterar as características naturais de uma cerveja, ao mesmo tempo que impossibilita a sua diferenciação de uma cerveja de garrafa. Todavia, para alguns, esse avanço tecnológico não foi suficiente já que, segundo eles, muitas pessoas optam por beber cerveja directamente da lata o que provoca o contacto da boca com uma área de metal que não está protegida por essa substância plástica. E contra isto pouco se poderá argumentar!

Do outro lado da barricada, os argumentos dos defensores da cerveja em lata passam pelo baixo custo de produção, fácil manuseamento e transporte, protecção total contra os efeitos nocivos da luz e maior rapidez no processo de arrefecimento. Como defeitos das garrafas apontam o facto de serem mais caras de produzir, exigirem maiores cuidados no transporte por poderem ser quebradas e, acima de tudo, realçam os efeitos nocivos que a luz pode causar na bebida. Isto leva-nos a uma outra questão que é a cor do vidro das garrafas. Não é por acaso ou por uma questão estética que a maior parte das garrafas de cerveja são produzidas em vidro castanho. A luz solar e as luzes fluorescentes podem causar uma rápida oxidação da cerveja, tirando-lhe qualidades e "envelhecendo-a" precocemente. Como tal, os produtores cervejeiros optam por vidros escuros mas que, ainda assim, possibilitem vislumbrar o líquido dentro da garrafa. É por esse motivo que as garrafas castanhas são preferíveis às garrafas verdes ou brancas. Isso não implica que uma cerveja que venha numa garrafa verde ou branca seja de má qualidade ou se estrague mais depressa. Devemos, no entanto, ter alguns cuidados extra e guardá-las em locais escuros e sem luz directa.

Para complicar mais as coisas, o final do século XX trouxe uma grande variedade de novas embalagens. Não é pois de estranhar que a Miller Brewing Co. tenha passado a vender alguns dos seus produtos em garrafas de plástico. No sentido inverso, a Anheuser-Busch e a Pittsburgh Brewing Co. introduziram garrafas de alumínio, esteticamente atractivas e que, para além do mais, não se quebram e atingem temperaturas mais baixas. Em Portugal, também a Super Bock aderiu ao conceito da garrafa de alumínio.

Deste modo se conclui que muito dificilmente uma cerveja em lata ganhará qualquer sabor metálico diferindo, deste modo, muito pouco de uma sua congénere em garrafa. Então, como se explica a persistência desta ideia negativa em relação às latas? Acredito que tal tenha um pouco a ver com a tradição. As cervejas em lata lembram a produção massificada, um produto industrial e barato, enquanto que uma cerveja de garrafa tem aquele carisma e lembra o passado. É facil imaginar os monges a fazer cerveja nas suas abadias e a engarrafar o produto. Muito dificilmente conseguiremos associar essa imagem as latas! Um monge a enlatar cerveja? Hmmm, não me parece... Enfim, uma má cerveja será sempre uma má cerveja, seja ela servida de uma garrafa ou de uma lata. E uma cerveja boa será sempre boa, independentemente da embalagem em que venha!

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