história da cerveja - Brasil - 2ª parte
Após uma breve resenha histórica aos primórdios da fabricação e consumo de cerveja no Brasil, importa agora debruçarmo-nos sobre as marcas que assumiram, não só, a liderança do mercado, mas também a vanguarda tecnológica. E nestas áreas há que destacar duas empresas: a Brahma e a Antarctica. Considerando que só a partir dos anos 30 do século XX se começou a definir com alguma precisão o conceito de marca, já que, como referimos anteriormente, muitas cervejas eram lançadas para o mercado sem nome próprio, iremos fazer uma análise à história de cada uma individualmente. Deste modo e sem ter em conta nenhuma ordem em especial, começaremos pela Brahma.
Como já
mencionámos na primeira parte deste artigo, a Brahma foi fundada em 1888 pelo
imigrante suiço Joseph Villiger. A empresa, então instalada na Rua
Visconde de Sapucaí 128, adoptou o mesmo nome
que um deus da
Índia,
muito
venerado junto das águas do
lago de Pushkar, sendo que quem aí se banha tem
todos os seus pecados perdoados, por piores que estes sejam. A primeira imagem
associada à Brahma representava uma mulher envolta por ramos floridos de lúpulo
e cevada, sendo esta a componente do também primeiro rótulo da marca. Após
algumas fusões e aquisições já aqui enumeradas, a Brahma era, no início da
década de 30, uma empresa bem estruturada e virada para o futuro. A aposta em
novas tecnologias e publicidade criou uma grande afinidade entre a empresa e os
consumidores, não sendo por isso de estranhar que, em 1934, fosse a Brahma Chopp
a cerveja mais consumida no país. Nesse ano, a produção alcançou os 30 milhões
de litros de cerveja.
Ary Barroso e
Bastos Tigre compuseram a marchinha "Chopp
em Garrafa" que, cantada por Orlando Silva, publicitou fortemente este
produto. De facto, a Brahma Chopp era a principal marca da firma,
em 1937, ao lado de 29 tipos de cerveja e 16 tipos de refrigerante. Em
1943 é introduzida a Brahma Extra, cerveja com extrato forte e encorpado e que
tinha o slogan "Extra no Sabor, Extra na Qualidade, Extra nos Ingredientes -
Cerveja Brahma Extra, em garrafas ou 1/2 garrafas". Para além do lançamento de
novos produtos, a política de aquisições mantinha-se bastante activa. Exemplo
disso foi a compra do maior grupo cervejeiro do
Rio Grande do Sul, a Bopp, Sassen, Ritter e
Cia. Ltda, também conhecida por Cervejaria Continental, em 1946, que mais tarde
se viria a tornar na filial Rio Grande do Sul. Esta fábrica foi, entretanto,
descontinuada (1998).

Em 1954, a empresa celebrou o seu quinquagésimo aniversário, tomando como base o ano de 1904, data em que a firma se tornou na Companhia Cervejaria Brahma, resultante da fusão entre a Cervejaria Brahma e a Cervejaria Teutônia. Nesse curto espaço de tempo, a empresa tinha-se tornado numa das maiores do Brasil, com 6 fábricas e 1 maltaria em laboração. Para continuar a expandir-se, tornava-se urgente a elaboração de um plano de distribuição que abrangesse as áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos. Para isso, a Brahma comprou pequenas empresas e criou filiais. Neste último caso, podemos dar como exemplos a filial de Agudos, São Paulo, que nasceu a partir da antiga Companhia Paulista de Cerveja Vienenses, que mais tarde passou a fabricar a cerveja em lata, ou a Filial do Nordeste, na cidade do Cabo - Pernambuco, que foi inaugurada em 1962. Sendo a Brahma uma empresa de capital 100% nacional e sempre preocupada em manter o padrão de qualidade dos seus produtos e a participação no desenvolvimento do país, tornava-se óbvio que a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico não podiam ficar de fora dos seus planos. Assim, em 1968, é inaugurada, no Rio Grande do Sul, a Estação Experimental de Cevada para testes de novas variedades de cevada cervejeira, adaptadas ao clima e solo da região. Em 1971, através da Cervejaria Astra S.A., a companhia concretiza uma forte aliança para a fabricação e distribuição dos seus produtos no Norte e Nordeste do Brasil. A Astra tinha sido criada um ano antes pela firma J. Macêdo & Cia, em Fortaleza - CE, produzindo então uma cerveja de marca própria. Ainda nesse ano, a J. Macêdo adquire o controlo accionário da Cervejaria Miranda Corrêa, de Manaus - AM, para, de seguida, se associar à Brahma, como já atrás foi referido.
Os
anos 70 são marcados pela contínua expansão da companhia e por algumas
alterações na forma de apresentar os produtos. Logo em 72, a filial de Agudos
lança a
Brahma Chopp e a Brahma Extra em lata de folha
de flandres. É também nesse ano que chega ao mercado a garrafa "personalizada",
de vidro incolor e com o nome do produto gravado no vidro. Esta evolução iria
dar origem, alguns anos mais tarde, ao lançamento da Brahma Chopp em garrafa
própria, de vidro e cor âmbar (antes era engarrafada em vasilhames de qualquer
cor). Destaca-se também a adopção dos engradados plásticos para o transporte de
cervejas e refrigerantes, inovação levada a cabo pela filial da Brahma em
Curitiba (antiga Cervejaria Atlântica, na posse da Brahma desde 1942). Realce
igualmente para o pequeno número de novas cervejas que foram lançadas durante
esta década. Tal iria manter-se durante os anos 80, período em que a Brahma
apostou forte no mercado de refrigerantes. Todavia, a origem cervejeira da
empresa nunca foi descurada, pelo que não é de admirar que em 1980, com a
exportação da Brahma Beer (Brahma Chopp), a revista
"The Washingtonian" a tenha eleito como a melhor cerveja importada
dos EUA. Para aumentar a sua participação no mercado cervejeiro, a empresa
adquire o controlo accionário das Cervejarias Reunidas Skol Caracu, S.A. Além da
cerveja Skol, Chopp Claro Skol, da cerveja em lata Ouro Fino (destinada à
exportação) e da histórica cerveja Caracu, a companhia deu continuidade à sua
linha de produtos, elaborados em 7 fábricas espalhadas um pouco por todo o
Brasil.
Tecnologicamente avançada e com espírito empreendedor, a empresa lançou, em
1982, a Brahma Light, a primeira cerveja de baixa fermentação e baixo teor
alcoólico produzida no Brasil. Em 1983, na cidade de
Nova Iorque, a Brahma Light concorreu com mais
de 972 trabalhos internacionais e 14 brasileiros ao prémio "Clio
Awards", um dos mais prestigiados do mundo publicitário, tendo
arrebatado o primeiro lugar. Mas como nem só de publicidade vive uma empresa,
importando igualmente a qualidade dos seus produtos e a atenção que dá à
satisfação das
necessidades
dos seus consumidores, foi introduzida, em 1984, a Malt 90, apresentada em
embalagens de garrafas retornáveis de 300 e 600ml e também em lata. Esta cerveja
do tipo pilsen, apresentava cor clara, teor alcoólico médio e paladar suave e
saboroso. Infelizmente, não foi muito bem recebida pelos consumidores e acabou
por ser descontinuada, pelo que já não se encontra disponível no mercado. A
internacionalização da marca e a sua grande aceitação no mercado interno fez com
que o jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" a destacasse como a 7ª
empresa de cerveja do mundo, numa avaliação com companhias de mais 90
países. Este reconhecimento económico surgiu a
par do reconhecimento científico, obtido após a inauguração de uma moderna
cervejaria piloto para o desenvolvimento de novos produtos, no laboratório da
Filial Rio. Outra importante realização foi a inauguração, em 1988, de mais uma
fábrica de cerveja, neste caso a Cebrasp, em
Jacareí, São Paulo. Acompanhando a evolução do
mercado e preocupada com o meio ambiente, a Brahma lançou igualmente o "Projecto
Brahma para Reciclagem", introduzindo então a embalagem em lata de alumínio para
a Brahma Chopp e também a embalagem descartável de 300ml para a Malt 90. O final
da década fica fortemente marcado pela aquisição da Companhia Cervejaria Brahma
pelo Grupo Garantia, iniciando-se então um período de reestruturação e
construção de novas fábricas, como por exemplo a da Cervejaria Equatorial, em
São Luis, Maranhão.
A entrada na
última década do século passado fez-se, pois, com excelentes perspectivas no
futuro e com um espírito cada vez mais empreendedor. Deste modo, institui-se em
1991 o
Serviço ao Consumidor Brahma, junto com o
Código
de Defesa do Consumidor, ambos visando garantir apoio e satisfação aos clientes.
Durante o ano de 1992 inicia-se o esforço de exportação da Brahma Chopp para a
Argentina onde, ao final do primeiro ano, se torna a cerveja nº 1 entre as
importadas. Como consequência, torna-se necessário ampliar algumas fábricas, o
que acontece com a Cebrasp. 1994 é um ano de mudanças e conquistas. A
Administração Central da companhia sai do Rio de Janeiro e instala-se em São
Paulo, cidade onde ainda hoje se encontra. Relativamente às conquistas, temos a
incorporação da Companhia Anonima Cervecera Nacional, da
Venezuela, no portefolio da empresa, passando
aí a produzir-se a Brahma Chopp. São inauguradas igualmente mais duas filiais: a
Filial Santa Catarina, em Lages e a Fábrica de Luján, na
Argentina. Este desenvolvimento chama a atenção
da empresa norte-americana Miller Brewing Company, que constatou que o mercado
cervejeiro estava em crescimento, especialmente na América do Sul. Em função
disso, faz em 1995 uma joint venture (acordo) com a Brahma para distribuir a
Miller Genuine Draft. Neste
acordo,
havia a possibilidade da Brahma fabricar a cerveja no Brasil para competir no
mercado interno. É exactamente o que acontece em Julho de 1996: a
Miller Genuine Draft passa a ser fabricada pela Cebrasp e distribuída
pela rede Exclusivas Brahma. A partir desse ano, o 0800 foi divulgado em todas
as embalagens dos produtos e o consumidor também pôde optar pelo atendimento via
carta e, desde Junho, via Internet. A companhia foi a primeira empresa de
bebidas a oferecer esse serviço via Internet ao consumidor mantendo, inclusive,
contacto com consumidores de outros países. As perguntas e sugestões dos
consumidores geraram algumas mudanças de processos e contribuíram para o
desenvolvimento de novas embalagens como a Malzbier long neck. Reforçando o seu
carácter moderno, a empresa lança no mercado as novas embalagens long neck e
lata com 355ml, já que esse é o padrão internacional de embalagens descartáveis.
Para dar continuidade a essa modernidade e atender às necessidades do
consumidor, a Malzbier Brahma, lançada em 1945, sofre uma modificação visual no
seu rótulo e também entra no mercado com a embalagem long neck na versão 355ml.
Os últimos dez
anos continuaram a ser de crescimento, pelo que, muito naturalmente, se tomou a
decisão de expandir o parque fabril. No início de 1996 é inaugurada a Filial Rio
de Janeiro, no bairro de Campo Grande - RJ. Trata-se da maior fábrica de cerveja
da América Latina, com capacidade de produção de 12 milhões de hectolitros por
ano. É igualmente iniciada a construção de mais 2 unidades fabris: uma em
Viamão
- Rio Grande do Sul e outra correspondente à Cervejaria Águas Claras, no
município de Estância,
Aracaju. O aumento da produção permite
também um incremento nas exportações, pelo que em 1998 a Brahma Chopp passou a
ser exportada para a Europa, utilizando como porta de entrada a França.
Influência deste último país, ou não, o facto é que a chegada do novo milénio é
comemorada com a introdução de uma Brahma Chopp em embalagem especial, muito
similar a uma garrafa de
champanhe. Aproximava-se então o grande choque:
em 1999, a Companhia Antarctica Paulista e a Companhia Cervejaria Brahma
anunciavam a criação da Companhia de Bebidas das Américas (AMBEV), resultante da
fusão entre ambas. Estava assim criado um gigante económico mundial, sobre o
qual nos debruçaremos mais tarde.
Já em 2006, surge o Chopp Brahma Black. Trata-se de um chopp estilo Lager, escuro, com adicção de nitrogénio, o que torna a bebida mais leve e com uma espuma muito mais estável e cremosa.
Nota: alguma da informação aqui contida foi desenvolvida com base no excelente site Cervisiafilia, local que desde já o convidamos a visitar.
3ª Parte →


