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Budweiser vs. budweiser

Duas cervejas diferentes, o mesmo nome. Confusos? É natural. Trata-se de uma batalha legal que tem décadas e que os próprios tribunais sentem dificuldades em ajuizar. De um lado a Budweiser, a cerveja americana mais vendida em todo o mundo, produzida pelo gigante Anheuser-Busch. Do outro, a Budweiser produzida na Repúblia Checa pela Budejovicky Budvar.

A Budweiser norte-americana, também conhecida por Bud, foi criada em 1876 pela empresa Anheuser-Busch, companhia fundada pelo emigrante alemão Adolphus Busch com base numa empresa cervejeira previamente existente em St. Louis que, pela altura da sua aquisição, passava por graves dificuldades financeiras. A Budweiser rapidamente se tornou num sucesso de vendas e em 1901 já se produziam 1 milhão de barris desta cerveja por ano. Actualmente, é a marca de cerveja mais vendida no mundo e uma das mais conhecidas. Tudo isto resultaria numa bonita história de sucesso e de concretização do sonho americano se, a muitas centenas de quilómetros de distância, não existisse uma empresa de cervejas checa que reclama a exclusividade na utilizaçao desse nome.

Para compreendermos um pouco melhor esta situação, temos de voltar vários anos atrás na História. A cidade de Ceske Budejovice, na actual República Checa, foi fundada pelo rei Premsl Otakar II em 1265. Tal como muitas outras cidades da Boémia, foi várias vezes dizimada por saques, pestes e guerras mas, tal como a fénix, renasceu sempre das cinzas. Entre os factos mais importantes da sua história, realce para a permissão real de produzir cerveja, algo que esta cidade tem feito ininterruptamente desde há mais de seis séculos. No entanto, a actual empresa cervejeira só foi fundada em 1895, ou seja, quase 20 anos depois da sua congénere americana. Deve-se contudo realçar que a designação Budweiser seria aplicada às cervejas produzidas naquela cidade desde o século XIV.

Chegamos então ao cerne da questão: duas empresas ambiciosas, com dois produtos similares e que, acima de tudo, têm o mesmo nome. Actualmente, estas questões de designações idênticas e de nomes registados têm originado inúmeros processos judiciais que, muitas vezes, a bem da sua resolução, movimentam milhares de euros em indemnizações ou acordos extra-judiciais. Todavia, o confronto entre estas duas empresas deu-se bem antes da era global que vivemos, mais propriamente no início do século XX. Deste modo, a Budvar checa começou a ser importada para os EUA ainda antes da Proibição sendo que, em sentido inverso, a Bud americana começava a sua conquista mundial e expandia-se para a América do Sul, Canadá e Europa. Para obviar futuros problemas, as duas empresas estabeleceram um acordo em 1911 no qual a Anheuser-Busch concordava em não utilizar a designação Budweiser na Europa, ao mesmo tempo que concedia a expressão "Original" à cerveja checa. Tudo estaria muito bem não fora o grande crescimento da Bud americana e o relativo ocaso da firma checa.

           

De facto, a II Guerra Mundial, a ocupação nazi e a posterior inclusão da Checoslováquia no bloco comunista, impediram o desenvolvimento natural da Budejovicky que, quase por sorte, não desapareceu por completo. Tal fragilizou a sua posição em futuras negociações, tanto para mais que a Anheuser-Busch se tinha tornado na maior empresa de cervejas do mundo. Deste modo, a Budweiser americana, desrespeitando o acordo previamente assinado, passou a vender a sua cerveja na Europa com a designação Bud ou Budweiser. Mais uma vez, tudo poderia seguir o seu curso normal, não fora a queda do bloco comunista, a Revolução de Veludo e a separação da Checoslováquia em dois países diferentes e soberanos: a Rep. Checa e a Eslováquia. A formação destes países originou fortes movimentos nacionalistas que, como é óbvio, criaram nas populações um sentimento de orgulho e de defesa dos valores e símbolos do país. E, como é fácil de perceber, a marca Budweiser é um motivo de orgulho para o povo checo. Daí que esta questão sobre a designação Budweiser tenha voltado a florescer no início da década de 90 do século XX.

Inicialmente, a Anheuser-Busch optou por uma situação de negação, isto é, de não existência de qualquer outra marca Budweiser. Tendo falhado esta abordagem, procuraram estabelecer acordos e parcerias. Como todos pareciam desfavoráveis a Budvar checa, esta não os aceitou, o que conduziu à etapa final: dezenas de processos em tribunal, em mais de 80 países. Isto originou situações muito confusas e diversas: a Alemanha e a Suiça obrigaram a Anheuser-Busch a vender a sua cerveja com uma designação diferente; já a Inglaterra reconhece ambas as marcas enquanto que na Irlanda prevalece a marca americana. Os últimos episódios passaram-se na Itália, Espanha, Dinamarca e Finlândia, onde decisões dos tribunais deram razão à A-B. Todavia, tal poderá estar a mudar, dada a adesão da Rep. Checa à Comunidade Europeia (CE) e a existência, dentro desta, de designações protegidas, como sejam o presunto de Parma ou o vinho do Porto. Os checos estão a tentar que a CE reconheça o nome Budweiser como um símbolo histórico, cultural e de identidade nacional.

Há, no entanto, uma grande diferença entre as duas empresas. Se a Bud americana pode vender no continente europeu, independentemente das designações que adopte, tal não acontece com a Budvar checa, que está impedida de entrar no mercado dos EUA. Ou melhor, estava. Após uma ausência de mais de 60 anos, os marketeers da empresa descobriram um subterfúgio para vender a Budvar em solo americano: alteraram o nome de Budvar para Czechvar. No seguimento desta mudança, seguiu-se uma forte campanha publicitária, onde se utilizaram slogans como "Only the name has been changed to protect the beer" ou "It's really what you think it is". Muitos combates legais se adivinham, umas vezes com vantagem para uma, outras vezes para outra. Mas cada vez mais é perceptível que as pessoas se apercebem que Bud não significa de imediato a Macro Lager produzida pela Anheuser-Busch.

Finalmente, resta-nos analisar os dois produtos. E se, em termos de nome, são iguais, em termos de qualidade e de segmento de mercado onde se inserem estão em campos quase opostos. É claro que, como acontece em qualquer avaliação de cerveja, tudo é subjectivo pelo que as considerações que irei fazer a partir daqui revelam apenas o meu gosto pessoal. Começando pela Budweiser americana, devo confessar que é das piores cervejas que bebi até hoje. Fraca, fraca, fraca. Falta-lhe tudo para poder ser considerada uma boa cerveja. Independentemente disso e fazendo jus aos seus feitos, deve-se referir que é a cerveja mais vendida no mundo desde 1957 e que é distribuida em mais de 70 países. Para além do mais, uma em cada cinco cervejas vendidas nos EUA é uma Budweiser. Relativamente à Budweiser Budvar, trata-se de uma excelente Pilsener da Boémia, com todas as qualidades inerentes a este estilo, nomeadamente em termos de presença de lúpulo e consequente aroma e teor de amargo. Uma Pilsener de grande qualidade mas, na minha opinião, ainda inferior a uma Pilsner Urquell.

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