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FIM DO MITO: CERVEJA NÃO FORMA BARRIGUINHA

Imperiais, finos, louras, pretas, ruivas – em Portugal cada habitante bebe em média 65 litros de cerveja por ano mas pouco se sabe sobre os efeitos da bebida na saúde. Os especialistas ajudam: não é consensual mas há fortes evidências de não haver uma associação directa entre o etanol, e a cerveja em particular, e a adiposidade abdominal, sobrepeso ou obesidade. De facto, não existem evidências científicas que provem que a cerveja é responsável pela famosa ‘barriguinha', antes pelo contrário: esta bebida tem um efeito protector sobre o peso corporal, obesidade abdominal e síndrome metabólica. Estas são algumas das conclusões retiradas do Simpósio Cerveja e Peso Corporal: Mitos e Realidades, que teve lugar no dia 11 de Outubro de 2008, na Faculdade de Medicina de Lisboa. Para além disso, desfizeram-se alguns mitos e ficou a recomendação: o consumo moderado, que é como quem diz uma a duas cervejas por dia, ajuda a reduzir o risco de doenças cardiovasculares ou osteoporose e não engorda.

Arne Astrup, especialista dinamarquês em nutrição e presidente da Associação Internacional para o Estudo da Obesidade (IASO), expôs os mais recentes avanços, focando a sua intervenção na obesidade abdominal, o factor que mais contribui para a síndrome metabólica. Segundo explica o investigador, a prevalência da síndrome metabólica é ligeiramente inferior entre os que bebem cerveja e vinho, em comparação com os que não bebem.

Quanto aos consumidores regulares de álcool, o risco de desenvolverem síndrome metabólica vai reduzindo com o aumento do consumo de álcool, com um efeito semelhante nos homens e nas mulheres. Precisamente o contrário do mito instalado de que a cerveja é responsável pela obesidade abdominal. De acordo com os diferentes estudos apresentados por Arne Astrup, é o não consumo de álcool que aumenta, efectivamente, o risco de se desenvolver a síndrome metabólica. No entanto, o especialista sublinha que o consumo em excesso é contraproducente. A chave está na moderação.

Percentagem de pessoas obesas em diversos países do mundo.

Outro estudo referenciado por Arne Astrup revela ainda que as bebidas alcoólicas têm um efeito benéfico no colesterol bom (HLD), nos triglicéridos, e nenhum efeito na pressão arterial, nem na glicose. Existe ainda um forte efeito relativamente à circunferência abdominal: aqueles que consomem mais bebidas têm uma circunferência da cintura mais reduzida do que aqueles que não bebem nada ou que consomem uma ou menos do que uma bebida por mês. O investigador dinamarquês conclui que há provas concretas de que a cerveja não conduz a um aumento da obesidade abdominal ou à síndrome abdominal. Pelo contrário, há provas de que possui elementos protectores. Atesta-o também um estudo experimental feito pela sua equipa, onde compara o consumo de refrigerantes, vinho e cerveja: os resultados mostram que o consumo de cerveja leva à ingestão de menos calorias, uma vez que possui menos calorias do que o vinho e os refrigerantes.

Luís Matos é o autor da primeira avaliação sobre o consumo de cerveja e índice de massa corporal na sociedade portuguesa. Convidado para apresentar os resultados do estudo que diz transversal e com limitações derivadas do volume da amostra – 50 mil pessoas, inquiridas telefonicamente – o jovem investigador, mestre em Nutrição Clínica, diz que não existe uma relação de causa-efeito neste capítulo.

"O estudo que eu venho apresentar tem algumas limitações mas de facto nós não encontrámos qualquer associação entre o consumo de cerveja e a prevalência de excesso de peso e obesidade, excepto numa faixa etária muito específica, dos 25 aos 34 anos, em que realmente detectámos que quem consome seis cervejas ou mais por semana tem um maior risco. Este estudo foi baseado em inquéritos do Instituto Nacional de Saúde em que o consumo é indicado pela pessoa pelo que há sempre esse viés de informação. As pessoas têm tendência para dizer que bebem menos do que bebem na realidade, principalmente os consumidores mais pesados. Outra limitação é que peso e altura foram fornecidos pelos inquiridos", frisou.

A avaliação com base em dados recolhidos no final da década de 90 – o estudo posterior, de 2005/2006 ainda não estava disponível quando iniciaram os trabalhos – revela uma realidade que vai ao encontro da prevalência de pré-obesidade e obesidade em todas as faixas etárias e conclui que, apesar de ser muito difícil isolar todos os factores, o facto de, estratificada a amostra em faixas etárias, não haver mais que associações pontuais e pouco significativas permite excluir a hipótese de relação e avançar precisamente o contrário: consumo moderado parece ter um efeito protector.

Consensual ou não, a Sociedade Espanhola de Nutrição incluiu recentemente a cerveja na sua pirâmide alimentar. Exemplo a seguir? Para Luís Matos, a abordagem actual está errada mas "também não pode passar cá para fora a ideia de que se pode beber cerveja à vontade". Fixe-se então o que são consumos moderados: 480ml para o homem, 250ml para a mulher, por dia, de preferência às refeições. Como última nota dos investigadores: Quem bebe, beba uma, quem não bebe não precisa de começar a beber.

O Simpósio foi promovido pelo Centro de Informação sobre a Cerveja e contou ainda com uma intervenção de José Machado Cruz, do Instituto de Bebidas e Saúde (iBeSa), que abordou o papel histórico e cultural da cerveja.

Fontes:

Publicado a 28/10/2008

 

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