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Os primórdios da cerveja na madeira

A ausência de uma tradição cervejeira nacional fez com que a produção e consumo de cerveja no nosso país se desenvolvesse muito pela iniciativa de industriais e capitalistas estrangeiros. Essa situação não foi exclusiva de Portugal continental mas também sucedeu nos Arquipélagos, nomeadamente no da Madeira. De facto, as primeiras fábricas de cerveja em Portugal eram propriedade de estrangeiros ou funcionavam sobre a direcção técnica de mestres-cervejeiros de outros países.

Não é de todo impossível que tenham existido fábricas de cerveja em Portugal antes do século XIX, mas é dessa época que nos surgem os primeiros registos de tal facto. Na Madeira, o primeiro documento que menciona a existência de um local onde se produz cerveja aponta para o ano de 1840, data em que John Park estabelece uma pequena empresa na Camacha com apenas dois operários. Podemos imaginar a dimensão da produção desta fábrica mas isso apenas reflectia a pouca procura existente, já que os madeirenses tinham preferência pelo consumo de vinho ou vinho misturado com água. Só em meados do século XIX e com a chegada de muitos ingleses essa situação se começaria a alterar.

Os anos seguintes foram de crescimento gradual no consumo e produção de cerveja nesta ilha. Ainda em 1840 há registos da existência de uma pequena indústria na Travessa das Aranhas, Funchal, pertença de Guilherme Cave. Em 1854 existiriam no Funchal as fábricas do inglês John Mason, a de Manuel Marques Carregal e a de José Bartolomeu Correia. Nesta década há ainda que destacar as fábricas de Victorino José Figueira (1856) e a de José de Freitas (1859), ambas no Funchal e cuja produção se baseava em cerveja branca ou preta e "ginger beer" (também conhecida por limonada de gengibre).

Em 1872 é constituída pelo galês Henry Price Miles a “H. P. Miles & Cia, Lda.”, que apresentava a designação comercial de Atlantic Brewery e que tinha como objectivo produzir água de soda, limonada gasosa e cerveja. O equipamento instalado era já bastante avançado em relação às demais empresas mas encontrava-se ainda muito longe das actuais linhas de engarrafamento. Esta companhia viria a ter um papel de relevo no futuro da cerveja na Madeira já que foi ela, alguns anos mais tarde, que estaria na origem da ECM - Empresa de Cervejas da Madeira. No início do século, mais precisamente em 1908, as duas principais unidades industriais no Funchal produziam 666 hectolitros de cerveja branca e preta e 118 de ginger beer. Uma cerveja custava 30 réis enquanto que a ginger beer se ficava pelos 20 réis.

Só por curiosidade, analisemos, mesmo que superficialmente, a história de Henry Price Miles. Tendo chegado à ilha da Madeira em 1856 proveniente de Inglaterra, Miles trabalhou como aprendiz de James Rutherford, adquirindo desse modo conhecimentos e experiência nos negócios de exportação e importação. Em 1872, a família Rutherford regressou a Londres devido a grande parte das suas vinhas ter sido atacada pela filoxera, uma das praga mais devastadora da viticultura mundial. Apesar disso, os seus laços com a Madeira não se quebraram, tendo iniciado então um relação comercial que se baseava essencialmente na importação de vinho da Madeira para Inglaterra. Esse facto levou a que Miles decidisse comprar as acções da Rutherford na Madeira tendo, mais tarde, estabelecido um acordo de cavalheiros com o antigo dono em que se definia que qualquer vinho da Madeira que fosse vendido no Reino Unido, Escandinávia e Rússia fosse comprado através da H.P.Miles and Co. Aliás, esse acordo foi repeitado até à década de 60 do século XX, época em que os Rutherfords venderam a sua firma "Rutherfords, Osborne and Perkins" à Martini Rossi. Para além da produção vinícola, Miles foi um dos pioneiros da produção de cerveja na Madeira como já se referiu.

Entre o final do século XIX e o início do século XX o país passou por várias convulsões e o povo vivia numa situação de grande pobreza, algo que dificultava a importação de matéria-prima do estrangeiro como acontecia com a cevada e o lúpulo, indispensáveis à produção de cerveja. Como tal, as pequenas empresas que entretanto foram surgindo tiveram uma vida efémera pelo que apenas em 1922 se poderá destacar a constituição da sociedade "Araújo, Tavares e Passos, Lda.", dona da Fábrica Leão. Infelizmente, esta companhia também surgiu numa época de crise, situação que obrigou à fusão de todas as pequenas empresas numa só unidade industrial, dando assim lugar à Empresa de Cervejas da Madeira (ECM), companhia que durante muitos anos dominou o mercado local. Mas a ECM, pela sua história e preponderância, merece uma abordagem mais minuciosa e que será feita num outro artigo.

Apesar da constituição da ECM, a procura começou a ser substancialmente superior à oferta, uma vez que no início da década de 50 do século XX a ilha importava 29.520 litros de cerveja. Para além desta, havia igualmente uma tradição na ilha relativamente à sidra ou vinho de pêros, que era muito apreciada em princípios do século XX. Isto é testemunhado pelo número de lagares em toda a ilha, assinalando-se em 1908 dezoito. Hoje, a tradição da bebida persiste na vila do Santo da Serra. Todavia, na época a bebida mais apreciada era a aguardente sendo que, por vezes, o seu consumo se tornava excessivo, tornando-se por isso um problema de saúde pública e alvo de atenção pelas autoridades. Tal originou a que muitas pessoas se voltassem para outras bebidas, sendo que a cerveja foi uma das grandes beneficiadas com essa mudança de mentalidades.

Fonte:

  • João Adriano Ribeiro, "125 Anos de Cerveja na Madeira", Funchal, Empresa de Cervejas da Madeira, 1996.
  • Manuel Paquete, "A Cerveja no Mundo e em Portugal", Colares Editora.

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