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A CERVEJARIA JANSEN

Os cafés de Lisboa são um fenómeno que assenta raízes bem dentro do século XIX, sendo que o seu auge foi atingido já durante a segunda metade desse século e primeiros anos do seguinte. Ainda hoje subsistem excelentes exemplos dessa época, altura em que dominavam as tertúlias e a boa conversa, algo bem diferente do actual conselho de bica, beberagem miserável mais aconselhada a hipotensos e "cafeínodependentes" do que a verdadeiros apreciadores de café. Apesar de lhes faltar o brilho de outras épocas, a Brasileira, o Nicola ou o Martinho da Arcada aí estão para provar que os cafés foram estabelecimentos de grande importância na sociedade lisboeta, locais de divulgação e desenvolvimento cultural, de conspiração política ou, simplesmente, de degustação de um bom café. Sim, um bom café. Por certo não existiria o famigerado descafeínado, ainda por cima em chávena aquecida, pingado, com adoçante e pau de canela…

Cafés à parte, apontemos para aquilo que mais nos interessa, isto é, os estabelecimentos que, surgidos na segunda metade do século XIX, passaram a fazer concorrência directa às pastelarias, leitarias e cafés da moda: as cervejarias. Quando falamos em cervejarias, é bem provável que um dos primeiros nomes que nos vem à memória seja o da Cervejaria Trindade. Essa é, sem dúvida, a mais clássica das cervejarias lisboetas. E se, em termos cervejeiros muitas coisas mudaram, o ambiente, influenciado pelos painéis de azulejo do pintor Ferreira das Tabuletas, mantém um carácter bastante típico, ainda que dominado por um serviço vocacionado para os turistas. Mas hoje não será dia para abordarmos a Trindade que, felizmente, está de boa saúde, mas sim a sua maior rival à altura: a Cervejaria Jansen.

A Jansen iniciou a sua actividade não como cervejaria mas antes como empresa cervejeira. De facto, na base da Jansen esteve uma fábrica de cerveja instalada na Rua do Tesouro Velho, propriedade de Michael Gerards e Cª, corria o ano de 1855. Essa indústria funcionou nesse local durante os 5 anos seguintes, altura em que foi transferida para o nº 30 da Rua do Alecrim. A nova fábrica – Jansen – foi alugada a John Henry Jansen, cidadão dinamarquês e sócio de M. Gerards. Em 1865, um anúncio da fábrica, propriedade do já citado J. H. Jansen, referia a qualidade de “fornecedor da Casa Real” (Almanak Industrial, Commercial e Profissional de Lisboa, para o anno de 1868, por Zacharias de Vilhena Barbosa, Lisboa).

Seguindo os passos da Trindade, a Jansen abriu uma cervejaria em 1870, espaço que rapidamente se tornou num dos locais predilectos dos lisboetas. A cervejaria tinha uma decoração cuidada, tendo as pinturas do tecto ficado a cargo de António Ramalho. Mário Costa lembra o ambiente da antiga cervejaria: “A Cervejaria Jansen, modalidade de comércio destinada à venda directa ao público dos produtos fabricados (cerveja branca e preta, limonada gasosa, soda-‘water’ e xaropes) tornou-se um refúgio da gente moça, atraída pelos afamados bifes ‘à Jansen’, bem regados com a saborosíssima cerveja, tudo servido por criados de indumentária ‘belle époque’, pançudos, bonacheirões, bigodeira farta, casacos pretos e grande avental branco em trespasse. As canecas batidas sem cessar, sobre o mármore branco das mesas de grandes dimensões lembravam uma orquestra estranha e descompassada dando ao quadro um ambiente peculiarmente alemão”.

Foi na Jansen que tiveram lugar, no Outono de 1914, as reuniões do grupo Orpheu, a revista (publicada em 1915) que configurou o nascimento do modernismo literário português. Pelo ano de 1929, a cervejaria, com entrada pela Rua António Maria Cardoso, mantinha um pequeno anúncio na revista ABC, onde informava os leitores: “Entrada livre; todas as noites magníficos concertos e magnífica cerveja; serviço de restaurant”. A Jansen dispôs de uma filial, na Rua de São Julião, 170, e na Rua da Alfândega, 136, desde meados da década de 1880. Em 1934, a fábrica Jansen foi integrada na Sociedade Central de Cervejas, assim como a Companhia de Cervejas de Coimbra, sendo que a primeira se transformou no Retiro da Severa em Outubro de 1936, para assim sobreviver mais três anos. Ao tempo do ocaso dessa estrela das noites lisboetas, principiava ali a brilhar uma outra: Amália Rodrigues.

Para a história ficam as memórias e dois pormenores essenciais: a marca e o bife “à Jansen”. Sobre a primeira não há muito a dizer. Em 1993 a Central de Cervejas aproveita uma marca que estava esquecida no seu portefolio e lança a cerveja Jansen sem álcool. Já em 2003 surge a Jansen Preta, a primeira cerveja sem álcool de puro malte comercializada no mercado português. Apesar do forte investimento, já não há referências à Jansen no site oficial da Centralcer. O aparecimento da Sagres Zer0 deve ter levado ao segundo enterro desta marca centenária. Triste forma de desaparecer...

Quanto ao prometido bife “à Jansen”, eis a receita que nos é transmitida por Alfredo de Moraes: “Geralmente era feito com vazia ou pojadouro de vaca. Frigiam-no em sertã de ferro, das negras, que era previamente aquecida, com banha e toucinho picado. O bife era cortado alto e temperado com sal e um dente de alho esmagado. Deixavam-no mal passado. Guarneciam o bife com batatas de tamanho médio, cortadas em gomos e salteadas; estas batatas tinham sido cozidas, 4 ou 5 horas antes, com a pele, em água temperada com sal. A antecedência do cozimento tinha por fim permitir que as batatas pudessem esfriar, secar e enrijar antes de serem salteadas. Depois despelavam-nas e, no momento preciso, passavam-nas na gordura do bife. No final da preparação, adicionavam ao bife um pouco de manteiga fresca, para lhe aumentar o molho. Serviam-no num prato de louça, bem aquecido, com as batatas salteadas dispostas à volta, e coberto pelo molho”.

Fontes:

  • Alfredo de Moraes, "Quatro bifes célebres há cinquenta anos", Panorama, nº 12, II Série, Lisboa, Secretariado Nacional da Informação, 1955.
  • Manuel Paquete, "A Cerveja no Mundo e em Portugal", Colares Editora.
  • Mário Costa, "O Chiado pitoresco e elegante", Lisboa, 1965.

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