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PROVA CEGA A CERVEJAS PRETAS PORTUGUESAS

Por ocasião do último encontro mensal do Cervejas Do Mundo, ocorrido no passado dia 3 de Dezembro de 2008, propusemo-nos a realizar uma prova cega às cervejas pretas portuguesas. De facto, é muito fácil dizer que a marca x é a melhor do mundo e que nunca beberíamos a marca y, ou que as cervejas portuguesas são muito superiores a grande parte das cervejas estrangeiras e vice-versa. Mas será que alguma destas afirmações, ou outras que as costumam acompanhar, têm um mínimo de rigor ou são apenas baseadas em bairrismos bacocos e pura militância? A prova que efectuámos não responderá a todas as questões e nem era isso que pretendíamos. Foi apenas mais uma boa ocasião para confraternizarmos, degustarmos algumas cervejas e, em última análise, verificar se a imagem que cada um de nós tinha de determinadas cervejas e marcas se confirmava ou não.

O teste cego é um mecanismo utilizado em todo o mundo para aferir da susceptibilidade das pessoas a marcas e outras influências. E é algo muito simples de fazer. Imagine que tem um amigo que só bebe, por exemplo, cerveja Sagres. Se lhe perguntar: "Consegues distinguir uma Sagres duma Super Bock?", por certo lhe responderá que sim. Mas será assim tão fácil? A minha experiência em situações do género indica que em 50% dos casos falhamos a identificação da cerveja. Então, porque é que dizemos que só bebemos aquela marca e não a outra? Aí já teríamos que entrar na consciência de cada pessoa, o que seria por certo bem mais difícil...

O teste que nos propusemos realizar incidia sobre as cervejas pretas portuguesas. Escolhemos, para isso, 6 marcas que têm uma distribuição alargado no território português: Cintra Preta, Coral Tónica, Super Bock Stout, Tagus Dark, Cristal Preta e Sagres Preta. Infelizmente, não foi possível juntar a estas a açoriana Melo Abreu, que ainda tem uma distribuição diminuta ou mesmo nula no continente. Mas, para tornarmos o desafio mais interessante, juntámos ao lote mencionado a austríaca Kostritzer, uma das mais afamadas Schwarzbier do mercado. Refira-se que os provadores não souberam até ao final do teste da existência de uma cerveja estrangeira no conjunto de cervejas a experimentar.

Para se conseguir realizar um teste cego com um mínimo de rigor, vários factores foram tidos em conta: as cervejas foram compradas todas no mesmo dia; todas foram conservadas no mesmo frigorífico, isto é, à mesma temperatura; foram servidas em copos totalmente idênticos; a ordem pela qual foram servidas foi escolhida de forma aleatória; nenhum dos provadores soube antecipadamente a cerveja que estava a beber. Vários outros pormenores foram seguidos mas o objectivo deste texto não é estar a maçar-vos com detalhes. O factor decisivo a destacar é que nunhuma cerveja foi beneficiada ou prejudicada em relação a outra, visto todas terem tido um tratamento semelhante.

Dos 10 participantes do encontro, 9 fizeram a prova enquanto um se dedicou a servir as cervejas (por sinal este vosso escriba). Os degustadores são todos membros do fórum Cervejas Do Mundo, a saber (respectivos nicks): pedro.m.reis (PR), Cerevisiae (C), Antonio Lopes (AL), GoRDiK (G), sir_veja (SV), barbas (B), mitos (M), McQueen (MQ) e Brett (BT). Optámos por valorar as cervejas numa escala de 1 a 5 para aroma e sabor e de 1 a 3 para aparência e palato, sendo que o resultado obtido por cada cerveja foi simplesmente o somatório dos valores que cada uma delas atingiu nos respectivos itens. Em termos de quadro as coisas ficam então assim:

  PR C AL G SV B M MQ BT Total Lugar
Sagres 8 12 9 11 14 10 12 15 8 99
Coral 10 10 12 10 8 8 6 12 5 81
Super Bock 11 9 9 10 12 11 9 9 10 90
Kostritzer 13 10 8 11 10 8 9 16 11 96
Cristal 10 10 8 10 8 6 6 8 8 74
Cintra 13 13 11 9 14 11 12 15 12 110
Tagus 9 11 13 9 10 10 12 14 7 95

 

Conclusões? Perante estes resultados muito se poderia especular mas deixo para vós próprios a leitura das nossas avaliações. Independentemente disso, não posso deixar de analisar estes resultados - até porque não participei como provador - e fazer algumas considerações e ressalvas.

Não deixa de ser curioso que a Cintra Preta tenha sido avaliada como a melhor do teste por 7 membros do júri, sendo que essa regularidade lhe valeu o 1º lugar no geral. A marca Cintra, que tem passado por tantas vicissitudes quase desde a sua criação, tem aqui um bom produto ao qual apenas falta um pouco mais de exposição. A experimentar!

O motivo pelo qual decidimos incluir a Kostritzer no painel de cervejas a experimentar prende-se com o facto de muitas vezes achármos que as nossa cervejas são as melhores do mundo ou, em sentido contrário, as piores. Em geral, somos pessoas de extremos. Obviamente que o mais natural é que as nossas cervejas possuam uma boa qualidade, sendo capazes de competir com qualquer cerveja de índole comercial que se faça por esse mundo fora. Podem não ser as melhores mas por certo não envergonham ninguém. A Kostritzer é tida por muitos como um paradigma do que deve ser uma Schwazbier e foi esse o motivo que nos levou à sua inclusão. Serviria também como ponto de referência para a análise que agora estamos a efectuar.

A Cristal Preta ficou substancialmente mal classificada mas, para que se perceba que fizemos as coisas com total seriedade e transparência, deve-se ressalvar que o six-pack que comprámos estava em promoção e que a data limite para consumo das cervejas acabava no fim do presente mês, isto é, Dezembro de 2008. O tempo e forma de armazenamento, a idade, incidência da luz, entre outros factores, podem ajudar a explicar o sabor algo estranho que apresentou. É pois uma cerveja a voltar em breve!

Entre as eternas rivais, a Sagres superou a Super Bock e, eventualmente, com um handicap superior: a Sagres foi a primeira cerveja a ser degustada, facto que motivou que demorasse um pouco mais de tempo a ser servida do que as restantes, essencialmente por estarmos a apanhar o ritmo do teste. Desse modo, a nota de aparência da Sagres Preta poderá ter sido penalizada, ainda que de um modo bastante ligeiro. Ressalte-se pois o fraco lugar da Super Bock Stout, que ficou na metade inferior da tabela, o que pode significar que muita publicidade e dinheiro não fazem necessariamente uma boa cerveja.

O teste que efectuámos nada tem de científico e mesmo em termos de análise sensorial apresenta algumas nuances. De facto, apesar de serem todas cervejas escuras (ditas pretas), tal não significa que sejam do mesmo estilo. Na verdade, colocámos no mesmo saco cervejas cujos próprios fabricantes classificam como Stout, Schwarzbier ou Munich. São estilos de cerveja diversos com características diversas. Portanto, esta avaliação vale o que vale e cada um poderá tirar as suas conclusões. No entanto, apesar de todos estes "ses", penso que uma coisa este teste terá de positivo: irá com certeza despertar a curiosidade de algumas pessoas para outras marcas que existem no mercado. Ouse da próxima vez que decidir pedir uma cerveja preta. Quem sabe não se surpreenderá como alguns de nós também se surpreenderam!

Finalmente, resta-me agradecer a todos os que participaram em mais este encontro. Deixo em especial um obrigado ao Vasco pelo magnífico espaço que colocou à nossa disposição e também ao Fernando da Loja da Cerveja Caseira que, mais uma vez, co-organizou com o CdM um evento de divulgação da cultura cervejeira.

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