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vamos falar com... o CERVISIAFILIA

A entrevista de hoje é feita a um dos mais interessados pesquisadores da história da cerveja no Brasil, para além de ser um coleccionador de itens relacionados com cerveja e um bom amigo. Como o Carlos Coutinho refere, as pessoas têm memória curta e torna-se importante sistematizar informação e guardá-la para a posteridade, por forma a que não se desvaneça na poeira do tempo. É isso que se procura fazer no site Cervisiafilia: investigar as origens das empresas cervejeiras, marcas que produziram, motivos para o seu encerramento, etc. Para além do mais, a excelente colecção de artigos cervejeiros fazem deste site uma visita obrigatória para quem se interessa pelo assunto. Eis pois a entrevista que fizemos ao Carlos Coutinho:

CervejasDoMundo (CdM) - Como surgiu o seu interesse por cerveja e pelo coleccionismo de itens relacionados com cerveja?

Cervisiafilia - Não me interesso só pelo colecionismo relacionado à cerveja, mas pelo de  bebidas brasileiras em geral.  Por motivos de espaço e gerenciamento da coleção a ênfase é dada à cerveja, porém os outros itens também têm seu lugar. Na realidade, quem começou a colecionar latas de bebidas por volta do ano de 1993 foi um filho que não mora comigo, minha esposa, Dª Vera Correa Coutinho, quando viu a coleção achou muito bonita e pediu que eu fizesse uma prateleira na copa para ela colocar as latas repetidas que se conseguia para ele. Após algum tempo ele desistiu e em 1997 deu todas as latas para ela.  Moralmente, a coleção é dela eu só gerencio e cuido. Nesse momento eu já participava colocando as latas de cerveja que encontrava ou comprava, passei a conhecer outros colecionadores, comprar, trocar, ganhar e com a ajuda da internet, a coisa foi crescendo e continua até hoje.

CdM - Ainda se lembra do seu primeiro artigo da colecção?

Cervisiafilia - Pela forma como comecei fica muito difícil afirmar mas acho que foi uma lata de guaraná Antarctica.

CdM -  Essa foi a sua primeira colecção ou antes de coleccionar latas, rótulos e afins já se tinha dedicado, por exemplo, a selos, moedas ou outros objectos?

Cervisiafilia - Desde criança sempre fui de colecionar: colecionei figurinhas, revistas em quadrinhos, bolas de gude, etc. Coleções que se perderam no tempo. Coleciono selos e cartões telefônicos, apesar de estar com estas coleções paradas há mais de dez anos. Fui, sou e serei filatelista até onde puder. A filatelia me ensinou a ter paciência: o item que hoje é raro amanhã pode não ser, me ensinou a pesquisar, buscar a história, saber do como, onde e porquê. Sou curioso e adoro história.

CdM - Você é também um arqueólogo da história da cerveja no Brasil. O que tem sido mais difícil nestas suas pesquisas históricas?

Cervisiafilia - O brasileiro tem memória curta e não registra a história. A fabricação da cerveja no Brasil se desenvolveu através dos europeus que emigraram para cá e por séculos faziam cerveja naturalmente, era um produto da cozinha com receitas passadas de mães para filhas.
Virou atividade econômica quando os emigrantes passaram a vender ou trocar por outros produtos o excesso de sua produção. Este comércio começou forçado pelas dificuldades do início da lavoura, a falta de outros tipos de trabalho e a língua falada fazendo com que se restringisse às colônias as atividades econômicas e com todas essas dificuldades a história foi se perdendo por nada ficar registrado. Por outro lado, depois que a fabricação da cerveja se estabeleceu realmente e começaram a aparecer fábricas bem maiores, ao longo do tempo os equipamentos foram ficando obsoletos e com as dificuldades de importação passaram a absorver as menores e mais modernas e fizeram questão de desaparecer com as referencias das absorvidas pois não interessava que os consumidores se lembrassem delas e também para apagar as negociatas, às vezes, feitas e que deveriam permanecer no escuro. As guerras também fizeram com que as documentações desaparecessem pois as fábricas eram dirigidas, na sua maioria, por alemães que por medo de perseguições alteraram o nome das firmas e deixaram de tornar pública quaisquer informações. Atualmente, não sei se por medo de concorrência ou ainda as negociatas, é muito difícil conseguir informações além das que saem na imprensa. Até os descendentes dos antigos proprietários nada sabem das atividades cervejeiras de seus avôs ou bisavôs.

CdM - No seu site existe mesmo uma enciclopédia da latinha. Há muito pessoal no Brasil a coleccionar latinhas ou outros artigos ligados à cerveja?

Cervisiafilia - Sim, há muitos colecionadores, já que o colecionismo cervejeiro é muito versátil e engloba muitos itens, deixa o colecionador à vontade de decidir o que quer colecionar e de que forma. Encontram-se colecionadores de latas por material (ferro ou alumínio), por países, por épocas, por tipo de bebida, por OC/OC (one country, one can – de cada país se tenta ter uma lata, de preferência a mais antiga); encontramos colecionadores de bolachas (porta-copos), rótulos, chapinhas (tampinha, carica), garrafas (vidro, pet, cheias, vazias, por tamanho e tipo), copos, taças, barris das mais diversas litragens, propagandas, tampas plásticas, utensílios que tenham marca ou logotipo, etc.  Uma particularidade interessante: o sexo feminino participa bastante deste tipo de colecionismo apesar de muitas não serem conhecidas por vergonha.  Todo ser humano coleciona alguma coisa, faz parte do instito animal, coletar e guardar.  Já visitei uma pessoa que quando soube que eu era um colecionador fez pouco caso e um discurso sobre perda de tempo, dinheiro e que eu guardava coisas inúteis, eu lhe disse: duvido que você não colecione alguma coisa,  ele respondeu que não. Ficamos neste impasse até meu olhar bater na geladeira, em sua cozinha.  A porta era completamente coberta por imãs de propaganda que sua esposa recolhia e ali colocava por serem “bonitinhos”. Vai daí...

CdM - Existe um mercado físico ou virtual para a compra/venda deste género de artigos?

Cervisiafilia - Sim, através de lojas e feiras de antiguidades, através de reuniões de clubes ou grupos de colecionadores (como o Brasil Chapter, Riolatas, Tcherveja) e principalmente os leilões físicos e online.

CdM - Como é que você armazena e expõe a sua colecção?

Cervisiafilia - Tenho um terraço de 100 M² com as paredes cobertas por estreitas prateleiras com latinhas, prateleiras um pouco mais largas com algumas garrafas, pastas de envelopes plásticos para rótulos e bolachas (porta-copos), móvel de madeira e vidro para abridores de garrafas, etc. A minha coleção pode ser vista nas fotos do site do Riolatas pois todas as reuniões foram e continuam sendo feitas a cada dois meses neste terraço.

CdM - Toma alguns cuidados especiais na conservação da sua colecção?

Cervisiafilia - Controle de ferrugem nas latas de flandres e aço, cuidado para que as de alumínio não amassem e sempre que possível uma limpeza e cera.

CdM - Qual é o artigo que você mais gostaria de ver na sua colecção?

Cervisiafilia - Algumas latas bem antigas e um tanto raras, tais como: Alterosa, Port, Toddy, Yuki, etc.

CdM - Já fez alguma loucura para comprar um determinado produto?

Cervisiafilia - Loucura propriamente não, mas já fiz algumas compras que se não fosse um colecionador jamais faria.

CdM - Como apareceu o Cervisiafilia?

Cervisiafilia - Em maio de 2001 criei um site, o “Latinhas e selos”, numa hospedagem brasileira grátis que após algum tempo saiu do ar. Consegui recuperar tudo que tinha de texto porém as imagens não. Procurei outra hospedagem gratuita e criei o “Cervisiafilia”, por volta de 2003, para colocar esses textos com o intuito de preservá-los. Abandonei a parte dos selos e incluí a cronologia da cerveja no Brasil. O nome Cervisiafilia foi criado a partir de cervisia, palavra que quer dizer cerveja e telia ou filia que quer dizer amigo de, ou simpatizante de. Tive de usar a palavra cerveja pois não havia em latim ou grego um correspondente para latinha que é uma peça moderna e na antiguidade não existia.

CdM - Como você vê o futuro da sua colecção e do Cervisiafilia?

Cervisiafilia - O futuro da minha coleção não é muito promissor pois muito em breve terei de abrir mão das latas de refrigerantes por falta de espaço, como já abandonei as latas estrangeiras e mais recentemente as de energéticos.  Quanto ao Cervisiafilia , ainda não parei pelo grande interesse de estudantes das mais diversas matérias quando estão fazendo seus trabalhos de conclusão de curso, pois sem ser eles não há interesse neste tipo de trabalho, há uma meia dúzia de interessados mas que sofrem do mal dos tempos modernos -  a falta de tempo para se dedicar e pesquisar.

Não deixem de visitar o site Cervisiafilia, onde vos espera uma magnífica colecção de rótulos, anúncios antigos, latinhas, assim como a história da cerveja no Brasil e resto do mundo.

Este bonito rótulo é apenas um dos muitos que poderá encontrar na maravilhosa colecção do site Cervisiafilia. Visite-a aqui.

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