NÃO QUEREMOS OS COPOS GELADOS!

Cada vez é mais comum encontrar cafés ou bares cujos empregados servem a cerveja em copos gelados. Bom, eu sei que na maioria das vezes é para agradar ao cliente e que nem todos têm a sorte de poder vir a usufruir de um copo nessas condições. Em geral, é para os melhores clientes, os mais frequentes ou aqueles a quem se quer fazer uma gentileza. Sinceramente, eu agradeço muito essa atenção mas, por favor, NÃO quero um copo gelado para a minha cerveja!

Na verdade, se estivermos a falar da cerveja como um refresco alcoólico, forma como muitas pessoas e mesmo companhias cervejeiras olham para esse produto, tanto faz que a cerveja seja servida gelada ou fria, de lata ou barril, zurrapa ou lavagem de canos. Mas eu sou, digamos, um beer snob, e se estou a tentar apreciar aquilo que estou a beber então prefiro que me sirvam num copo limpo, seco e à temperatura ambiente.

São vários os motivos que me lembro para justificar a recusa em beber uma cerveja de um copo gelado. Acima de tudo é uma questão de sabor. Qual o interesse em bebermos uma boa cerveja se não conseguimos degustá-la? Já várias vezes referi este facto no Cervejas do Mundo: a temperaturas muito baixas as nossas papilas gustativas não conseguem decifrar os sabores, pelo que tudo é catalogado numa massa indefinida que sabe a... algo. Pior ainda: a maioria das cervejas são já servidas a temperaturas abaixo do aconselhável; se a esse facto acrescentamos um copo gelado então estamos mesmo a beber algo a saber a nada. Outro facto negativo prende-se com a libertação de gás. Uma cerveja, a uma temperatura adequada, vai perdendo o seu gás naturalmente. Um copo gelado impede que a maioria do gás se liberte o que conduz a sensações de enfartamento e maior eructação (o também denominado arrotar).

Diria que estas são as duas maiores questões que devem conduzir à recusa dos copos gelados. Mas há mais: na maioria das vezes, os estabelecimentos comerciais não têm espaços próprios para gelar os copos, não sendo incomum conservá-los próximo de outros alimentos ou objectos. Esta situação pode originar a contaminação dos copos e alguma falta de higiene que, naturalmente, se deve evitar. Por outro lado, aquela camada de gelo que se forma no interior do copo é, como se percebe, água. Ora, ao servir a cerveja, em geral a uma temperatura superior, esse gelo irá derreter e misturar-se com a cerveja. Basicamente o que estamos a fazer é diluir a cerveja. Será uma coisa muito interessante se, por exemplo, gostar de misturar água no vinho ou então pedras de gelo à sua cerveja.

Obviamente que nada impede que o espaço onde costuma beber a sua cerveja tenha uns copos gelados para aquelas pessoas que gostam da cerveja bem fresca. O que não deve acontecer é essa situação ser a regra. Os copos gelados devem ser a excepção e só a pedido do cliente a cerveja deverá ser servida nesses copos. Em última análise, o cerne desta questão reside na temperatura a que deve ser bebida uma cerveja, aspecto que já tratámos neste artigo. Infelizmente, os funcionários dos estabelecimentos comerciais não têm, na maioria das vezes, formação adequada, facto esse que é agravado pelas campanhas perniciosas de algumas companhias cervejeiras que divulgam a cerveja gelada como sendo o supra-sumo. Não o é. E não sou eu, ou apenas eu, que o digo. É pesquisar nos inúmeros bons sites internacionais que se dedicam ao tema cerveja para verificar que o conceito "cerveja gelada" é uma aberração. Cumpre a nós, amantes da cerveja, ajudar a desmistificar essa ideia.

Publicado a 17/05/2011

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