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CZECHBEERMAN - REPORTAGEM Nº 1

A produção cervejeira por terras Checas – A Cervejaria Permon

Introdução

Meus caros leitores em língua portuguesa, amantes da cerveja em geral,

É com muito prazer que inicío esta colaboração com o Bruno Aquino e o site CervejasDoMundo.com. A partir de agora, com maior ou menor regularidade, irei trazer-vos notícias do meu país localizado no coração da Europa, em especial assuntos relacionados com cerveja. O meu nome é Libor Vojacek, tenho 42 anos e sou um verdadeiro fanático por cerveja, razão pela qual me costumam chamar de CzechBeerMan. O Brasil, tal como o meu país, é uma “grande promessa cervejeira” a nível mundial. Por isso, fiquem atentos às minhas reportagens, visitem comigo, passo a passo, algumas das mais interessantes microcervejarias checas e aproveitem para ficar a conhecer segredos bem guardados das melhores cervejeiras checas. Desejo-vos pois umas boas-vindas à República Checa. De modo virtual ou então pessoalmente. Na zdravi (Cheers)!

Cervejaria Permon – Boémia Ocidental

O nosso roteiro de hoje leva-nos à Boémia Ocidental. Estou ainda a iniciar esta reportagem mas já sinto no meu subconsciente que a pena correrá rápida e de modo fluente, pois a cerveja foi óptima e as vistas mais do que interessantes. Sabem, por vezes chega a ser aborrecido escrever sobre algo que não nos inspirou, que não teve nenhum charme ou encanto, ou quando a cerveja e a atmosfera não nos entusiasmaram. Não foi o caso de Lomnice, perto da cidade de Sokolov. Aí, pela primeira vez, experienciei o verdadeiro significado de microcervejaria familiar. Um negócio pequeno mas com pessoas entusiastas por trás. É esse o conceito subjacente à Cervejaria Permon. Os amigos Ladislav Sas e Jan Rada não ficarão por certo aborrecidos se os chamar de “cowboys”, num sentido positivo do termo, claro! Foi a alcunha que lhes dei logo no nosso primeiro encontro, sendo que rapidamente se percebeu que este hobby é algo muito sério mas feito também com base num grande sentido de humor. Boas premissas para se produzir boa cerveja. Enquanto o Sr. Sas é o dono da cervejaria, já o Sr. Rada é o mestre-cervejeiro por detrás das cervejas. O segundo é ainda enteado do primeiro. Portanto, estamos a falar de um negócio puramente familiar. Mas há mais que contar sobre ambos. Se o primeiro é o chefe e proprietário da companhia, tendo-se iniciado no negócio dada a sua paixão por cerveja, já o segundo deixou uma promissora carreira como electricista, abandonando os seus fusíveis, sockets e resistências para se dedicar à aprendizagem da arte da brassagem. Gostei da história deles. É o que chamo espírito e coragem! E daí a alcunha “cowboys”. Todos os países necessitam de pessoas empreendedoras e corajosas pois são elas que ajudam ao progresso. Mas mesmo estes dois não se atiraram para o abismo sem uma certa protecção. Inicialmente, a sua produção fez-se em pequenas cervejeiras de amigos e sob a supervisão do Sr. Josef Krysl, uma figura muito conhecida e respeitada no mercado cervejeiro checo (com largos anos de experiência em inúmeros cargos da empresa que produz a famosa Pilsner Urquell), que ajudou a desenvolver e melhorar receitas e a criarem um estilo próprio. Todavia, actualmente (2008), a pequena companhia já produz cerveja a todo o gás...

    

Bom, está na hora de darmos uma espreitadela ao interior da empresa! A visita começa pelo pub, local onde a cerveja Permon é vendida em exclusivo. Trata-se do pub da povoação (Lomnice) e chama-se U Franty.

Para aqueles que esperavam um restaurante de luxo, com mobiliário de época e toalhas de pano, o melhor conselho que posso dar é o de não entrarem. Este é um típico pub de uma área rural! Existem enormes mesas de carvalho, que nenhum homem conseguirá partir com um simples murro na mesa. As cadeiras também são maciças. Há um ligeiro fumo na atmosfera, principalmente fruto de uma lareira que existe ao canto. Ambiente agradável e despretensioso; uma das mesas estava ocupada por gente local. Do lado direito a zona do bar e atrás deste uma mulher na flor da idade. Não, não estou a falar daquelas miúdas com cerca de 20 anos que mal sabem o que é uma espuma decente e cuja bebida de eleição é uma “koka kola lait”... Definitivamente gostei do local. Não só a atmosfera é agradável como também os empregados. Posso apenas apontar um aspecto negativo a esta “taberna”: não fica próximo da minha casa!!! De facto, se eu vivesse em Lomnice acho que não beberia outra cerveja a não ser a Permon. Porquê, perguntam? E eu respondo-vos: porquê andar de Renault se já conduzes um BMW?

Pedi uma lager leve com 12º de extracto que estava disponível “on tap”, ao mesmo tempo que olhava para o que me rodeava. O já mencionado grupo de locais conversava alegremente e apesar de não aparentarem ser professores universitários, a sua conversa era lógica e muito interessante. Para além disso, a sua simpatia fez com que esperássemos mais algum tempo pois, segundo eles, estava quase na hora da cervejeira colocar à venda um barril com cerveja preta, provavelmente o melhor produto da Permon. “Parece hidromel”, disseram-me. Portanto aguardei...

Entretanto veio a cerveja que tinha pedido inicialmente. Servida numa larga caneca de 0,5l, mostrou uma espuma muito bonita e um sabor extremamente agradável. Não é de estranhar pois esta Light Lager 12 ganhou uma medalha de ouro em 2007 no Concurso da Primavera das Cervejeiras Checas (Jarní  Cena  Ceských  Sladku), que é uma competição dedicada à degustação de cervejas elaboradas por microcervejarias. Era boa mas bebeu-se rapidamente, pelo que pedi outra cerveja. Se a primeira era boa, esta segunda revelou-se excelente. Uma cerveja semi-escura com 12º extracto.

Nesse momento o Sr. Rada ofereceu-se para nos fazer companhia. Sentado na nossa mesa, presenteou-nos com recordações da cervejaria, ao mesmo tempo que falávamos sobre o que se ia bebendo. Disse-nos que começaram a engarrafar cerveja há pouco tempo e que gostaria que nós levássemos alguns exemplares para experimentarmos e ver se apreciávamos. Mas atenção, eram garrafas de 1 litro! Um tamanho óptimo! Se 0,5l podem ser insuficientes para matar a sede, já 1,5 litros é um valor excessivo para uma única pessoa. Portanto 1 litro pareceu-me um valor adequado. As garrafas têm um formato bem engraçado, apesar de serem de plástico - escuro e proveniente da Hungria. Será que são entregues com um bónus extra das maravilhosas salsichas húngaras?... Independentemente disso, a cerveja é mesmo feita no Paraíso da Cerveja, a República Checa!

Após a degustação das cervejas, o mestre-cervejeiro convida-nos a visitarmos as instalações onde se produz o maravilhoso néctar. Para isso, temos de andar 800-1000 metros até uma outra zona da vila, local onde se encontra a habitação do Sr. Sas, em cujo anexo se produzem as excelentes cervejas. O início da produção de cerveja nesse local data de 2006 e tudo demonstra que é uma casa (quase) como tantas outras: um jardim, o carro parado à porta...

               

Entretanto, o Sr. Rada vai fazendo uma visita guiada à microcervejaria. A maquinaria não é muita e tem uma capacidade para 100 litros de cada vez. A capacidade dos tanques de fermentação também é limitada pelo que se fizerem uns cálculos às pessoas envolvidas e material disponível, facilmente nos apercebemos que a produção será pouco mais do que suficiente para abastecer um pub como o que tínhamos estado anteriormente. Mas bom, estamos numa microcervejaria. Logo, a quantidade não é o mais importante. É a grande diferença entre as microcervejarias e as macrocervejarias. O défice na qualidade é compensado com ganhos na qualidade. E, neste caso, não restam dúvidas quanto às qualidades das cervejas da Permon. Se as puderem experimentar irão adorá-las!

                   

Em cima podemos observar quatro pequenos tanques de fermentação, fechados, e ainda um local para as lager estagiarem. Essa zona, separada das restantes, com uma climatização própria, tem uma temperatura adequada à maturação deste estilo de cerveja, não ultrapassando os 2-3 graus centígrados. Para além disso, a maturação faz-se em barris de alumínio. Produzem diversos tipos de cerveja, nomeadamente as Lager claras com 11º, 12º e 13º extracto; a Lager escura  com 12º extracto; e a semi-escura também com 12º extracto. Curiosamente já me esqueci de quanto paguei pelo meio litro de cerveja no U Franty mas lembro-me que não foi nada de trágico. Não estamos propriamente no U Fleku, na baixa de Praga! Tudo sem encontrões e sem pressas. A hospitalidade é uma regra em Lomnice, portanto o melhor é relaxar e beber um bom copo de cerveja por menos de 1 euro.

Estávamos quase a acabar a visita quando ouvimos uns passos. Seria ele? Sim, era o próprio dono que vinha saber o que acháramos das cervejas e da pequena cervejaria. O Sr. Sas é um homem calmo, que transparece no seu semblante a felicidade de ter conseguido realizar o seu sonho de produzir cerveja de qualidade e poder viver condignamente através da sua venda. Na sua roupa estavam estampados o Bart e Homer dos Simspsons. Não haja dúvida que estamos em presença de um homem que adora cerveja!!! A sua conversa divagou sobre como se iniciou no negócio, a forma de produção das suas cervejas, o lucro que se consegue obter, os concorrentes... Enfim, nem tudo são rosas para um pequeno negócio cervejeiro mas se se gosta daquilo que se faz, então as dificuldades são mais fáceis de superar. Só aqui em Lomnice me apercebi das vicissitudes que atingem uma microcervejaria, pelo que desejo ao Sr. Sas e ao seu negócio toda a sorte do mundo. Aliás, ele próprio já está a tentar assegurar um futuro melhor, existindo um projecto para que a companhia se mude para um local maior e mais próximo da cidade de Sokolov, sendo que a estrutura actual ficaria destinada à produção de cervejas experimentais. A ver vamos!

Ainda me recordo da ansiedade que muitos sentiram aquando da prometida abertura de uma nova microcervejaria chamada U Zlateho Andela (O Anjo Dourado), localizada na Rua Celetna, em Praga. A decepção foi enorme quando, após um sem número de anúncios publicitários, o espaço nunca chegou a abrir. Portanto, é melhor não anteciparmos as coisas demasiado para que, no caso de algo falhar, a tristeza não ser muito grande. Se um dia a Permon se mudar para Sokolov, espera-se pelo menos que mantenha a qualidade e os pés bem assentes na terra.

                    

Ninguém sai insatisfeito de Lomnice. Tanto os grandes conhecedores de cerveja como os simples consumidores ocasionais têm motivos para visitar esta pequena povoação. Para além destes, os próprios coleccionadores podem encontrar artigos muito interessantes como copos, bases e logos da Permon. Já sabem: se passarem próximo de Lomnice não se esqueçam de visitar o U Franty e beber uma Permon. Não se esqueçam igualmente de pedir um “utopenec” que significa literalmente “homem afogado” (uma salsicha tipo frankfurter com muito vinagre, pimenta preta, mostarda e cebola) acompanhado de uma boa cerveja. E é muito fácil chegar a Lomnice. Quando se está nas imediações da cidade de Sokolov (Boémia ocidental), toma-se a direcção de Kraslice e logo de seguida surgem as indicações para Lomnice, também conhecida como “Permonsville”! Para quem quiser ficar a conhecer melhor a companhia podem visitar o site oficial em www.pivopermon.cz (apenas em checo). Para mim foi um prazer conhecer a região e a microcervejaria. Da próxima vez talvez nos encontremos no pátio da cervejaria Chyne, perto de Praga.

Até lá.

Com um abraço amigo do

Libor Vojáček, o CzechBeerMan

(Repórter cervejeiro e coleccionador, Teplice, República Checa)

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