CZECHBEERMAN - REPORTAGEM Nº 11

Cervejaria Saint John (vila de Polepy, Rep. Checa)

Amigos brasileiros e portugueses, caros amantes da cerveja,

Antes de entrar verdadeiramente numa nova viagem cervejeira, permitam-me que divague um pouco. Adoro pormenores, coisas genuínas e únicas. Assim, se a Praga associamos a Cidade Velha e a Ponte Carlos, ao Porto o vale do Douro e a Lisboa a ponte Vasco da Gama, já a cidade de Kolin é relembrada pela sua música e as bandas a tocarem marchas triunfais. Podem ler mais sobre o assunto em: http://en.wikipedia.org/wiki/Franti%C5%A1ek_Kmoch 

Bingo! Eis que dou comigo a “googlar” uma das canções mais conhecidas “Koline, Koline... stojis v pekne rovine” (Kolin, Kolin, estás situada numa linda planície...). Tão bonita e melódica... A agradável cidade de Kolin, situada nas margens do Elba, numa com pouco relevo, essencialmente plana. A letra da canção também menciona uma jovem rapariga que se encontra atrás de um balcão de um bar a servir cervejas (“senkuje tam ma mila frajarecka rozmilá...”), um tema típico do folclore checo. Verdade seja dita, um pouco “tonto” mas naturalmente tradicional. E obviamente que a minha mente me leva um pouco mais longe e não posso deixar de imaginar que essa rapariga esteja a servir uma deliciosa cerveja checa!

Pois, “Cologne, Cologne” (Kolin, Kolin)... que nos leva à pivovarek.cz. Sim, chegámos. Em checo, pivovarek significa pequena cervejaria. E esta faz jus ao nome. Pequena, de características familiares. Aliás, a cervejaria fica no mesmo espaço que a casa familiar. Porque esperamos então? Está na hora de entrar e de aproveitarmos a boa hospitalidade que se avizinha. Sejam bem-vindos à casa do engenheiro civil o Sr. Martin Karavainov, localizada na vila de Polepy, bem próxima da cidade de Kolin. Mesmo no centro da Boémia. Trata-se de um negócio realmente unipessoal: uma casa, uma indústria, um dono, um mestre-cervejeiro, um empregado (sempre o mesmo...). Haha! Peço desculpa: há também a Sr.ª Ilona Vavrova, amiga do mestre-cervejeiro e que, de quando em vez, dá uma ajuda na cervejaria. Estamos pois na cervejaria Saint John! Espero que gostem.

A cervejaria existe nestes moldes desde 2007 mas esta não era a localização original. Em 1996 ela situava-se na própria cidade de Kolin, na antiga casa dos pais do Sr. Karavainov. A mudança deveu-se à necessidade de ter um espaço maior e mais moderno. No logo da companhia destaca-se uma caldeira e uma cobra de uma espécie não identificada... Mas uma cobra porquê? De início não consegui responder a esta questão. E vocês, conseguem? Haha! Não é fácil, mas em breve saberão. A serpente simboliza, supostamente, saúde e as cervejas são, sem sombra para dúvidas, um produto extremamente saudável (desde que consumidas com moderação, pelo que aconselho a que beba apenas um outro copo se vir que o primeiro já está vazio... haha!). Não, agora mais a sério, a alcunha do Sr. Karavainov, desde os seus tempos da escola, era “Python”. Vai daí...

A cervejaria foi, muito naturalmente, instalada na cave da casa e o que surpreende acima de tudo é a sua alvura. Tudo cheira a limpo e novo. Existem várias divisões, uma ocupada pelo moinho, outra por barris, outra pelo equipamento cervejeiro propriamente dito, outra por um pequeno escritório onde se anotam as encomendas, e por aí adiante. Ao virar da esquina, uma sala refrigeradaonde se faz a maturação da cerveja. Os tanques têm paredes duplas e entre elas corre água gelada, para um melhor arrefecimento.

Tecnicamente, utilizam o processo de decocção, sendo que o malte é trazido da cidade de Kounice (também na Boémia central, nas margens do Elba), a levedura é fornecida por uma cervejaria vizinha da cidade de Nymburk e o lúpulo, claro, o nosso ex-libris vem da região de Zatec (Saaz). Aqui são elaborados qautro tipos de cerveja: uma pale lager 12º “Insurrectionist”; a especial “Mazel” 14º (Cuddler); uma pale lager duplo malte 12º “Fesak” (Mod); e um lager de trigo de baixa fermentação (!!!) chamada “Oliver” (Olivier). Como vêm, os apreciadores de stouts podem apenas “limpar as lágrimas” pois aqui não as encontrarão. Algo que até a mim me faz pena, pois estou a tornar-me num verdadeiro apreciador desse estilo. Mas há que respeitar a estratégia da cervejaria e do próprio mestre-cervejeiro. O prazer está acima das questões económicas e para o Sr. Karavairov esse aspecto é de primordial importância. O gozo que lhe dá produzir cerveja sobrepõe-se a tudo. Para ganhar dinheiro a sério ele tem uma outra companhia que vende sistemas de bombagem, bombas submersíveis, etc. Pelo que este não é o seu negócio principal. A cerveja trata-se essencialmente de uma paixão e de um hobby. Cada batch ascende a cerca de 200 litros e é destinado, na sua maioria, para amigos, amigos de amigos, casamentos, determinadas festividades, entre outros. Diga-se que nenhum bar ou restaurante vende esta cerveja de modo permanente. Em Praga, a capital checa, o famoso “Bad Times” (Zly Casy – www.zlycazy.cz) dispõe ocasionalmente de cervejas desta marca. Mas é uma excepção. Nem mesmo na cidade de Kolin existe um pub que ofereça cervejas desta companhia. O que a meu ver, mais uma vez, é uma pena... Tenho a certeza que qualquer pub ou bar beneficiaria com a oferta destas cervejas. Mas como já referi, não me resta mais do que respeitar a estratégia dos mentores da cervejaria Saint John. Mas imaginem como seria um bar que vendesse produtos artesanais de excelente qualidade em vez das aborrecidas e indigestas Kozel ou Gambrinus...

Nesta cervejaria encontrei algum que nunca antes vira: uma pequena estação de tratamento de água. Quando questionei o mestre-cervejeiro sobre o equipamento, este respondeu-me “não, não é uma parte importante, ninguém estará interessado em ler sobre o assunto... é preferível falarmos antes sobre cerveja”. Ok, eu percebo que o Sr. Karavairov é uma pessoa modesta, afável e atenciosa, e agradeço que me tenha deixado entrar um pouco na sua privacidade. Mas já que me autorizaram a escrever e fotografar um pouco de tudo, eu quero mesmo escrever e fotografar tudo! Sobre a cerveja? Com certeza! Sobre o quarto onde dorme o mestre-cervejeiro? Talvez não... haha! Mas acabei por tirar uma fotografia ao equipamento para tratamento da água. É que estas pequenas coisas também são importantes. Não se pode estar sempre a falar sobre a espuma da cerveja, se é escura ou clara, qual o aroma ou sabor. Eu não sou um juiz nem tenho uma patente sobre como degustar cerveja! É tudo muito complicado e técnico. Limito-me a beber e apreciar a cerveja, haha! Afinal de contas, tudo o que eu quero é trazer aos leitores o conhecimento específico sobre uma dada cervejaria. Se a espuma da cerveja desaparece em três minutos ou em três minutos e meio pode ser muito importante, mas não para o caso.

A água local é muito dura e, de facto, pouco aconselhável para a produção de cerveja. E o mestre-cervejeiro sabe isso, razão da existência do equipamento. A diferença faz-se de detalhes. E é esse diferencial que explica muitas vezes o sucesso. Afinar os detalhes permite que se passe de uma boa cerveja para uma excepcional. E a cerveja desta companhia é excelente! Apesar de não a ter apreciado durante a minha primeira visita (soube-me a ferro ou ferrugem...), esta que estou agora a degustar está deliciosa! Deve-se também ressalvar que toda a tecnologia existente na fábrica é de produção interna, projectada pelo próprio mestre-cervejeiro. Ele próprio a imaginou, desenhou e acompanhou a sua construção.

A Saint John também engarrafa o seu produto, sendo que uma garrafa de 0,5l custa cerca de 25 CZK (1,00 €) e a garrafa de 1,5l, de plástico, custa 75 CZK (3,00 €). Então, do que estão à espera? É só ligar para o 00420 606 926737, encomendar a quantidade que quiserem e depois deliciarem-se com estas deliciosas cervejas, quem sabe entregues à porta de vossa casa.

Para terminar, aproveitámos para dar um pequeno passeio pela cervejaria (mesmo pequeno, dado o tamanho da mesma...). Ainda assim, aproveitei para tirar uma foto da python antes de me fazer à estrada, em direcção à cervejaria Chotebor (próxima reportagem). Temos de aproveitar as circunstâncias e visto que tenho uma obra para ver nas proximidades dessa cervejaria, no âmbito da minha profissão de engenheiro, há que aproveitar da bondade do patrão, certo? Hihi!!

Quase a terminar, deixem-me dizer-vos que adoro cobras. Eu sei... mas dêem-lhes uma hipótese! Elas são mágicas, misteriosas e muito bonitas. Únicas e muito “senhoras do seu nariz”. Vejam o contraste com os cães, por exemplo. São animais demasiado leais, que mesmo maltratados continuam a adorar o seu dono. É por isso que prefiro gatos, ou então cobras! Têm mais carácter...

Aproveito ainda para vos desejar, apesar de ser com grande atraso (estamos quase no fim de Abril! Como o tempo voa...!!!), um excelente 2010. Um grande ano para todas as cervejarias, microcervejarias e mesmo para as maiores multinacionais... assim como para todos os leitores do Cervejas do Mundo. Um ano cheio de coisas boas e de saúde! Cheers!

Com os melhores cumprimentos,

Libor Vojáček, o CzechBeerMan, CzechBeerMan@seznam.cz

(Repórter cervejeiro e coleccionador, Teplice, República Checa)

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