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CZECHBEERMAN - REPORTAGEM Nº 3

Um passeio por terras húngaras – A Rotburger Brewery

Caros amantes da cerveja, amigos e leitores em língua portuguesa,

Udvozoljuk Budapesten, ou seja, Bem-Vindos a Budapeste. Proponho-vos hoje uma viagem pelo sul da Hungria, zona conhecida pelas suas excelentes salsichas, pelo maravilhoso vinho e pelo licor que é considerado o aperitivo nacional: o Unicum! Para dizer a verdade, eu, como cidadão checo, quase me sinto em casa, talvez fruto dos muitos anos que vivemos debaixo de um mesmo Império. Aliás, terá sido esse convívio que lhes permitiu aprenderem connosco a produzir boas cervejas (calma, estou a brincar!!!). Vamos então lá ver se os checos lhes ensinaram alguma coisa de útil! Bom, pode parecer que estou a fazer pouco dos húngaros, mas não é bem assim. Se é verdade que os checos produzem melhor cerveja, também não estamos a mentir se dissermos que cada país tem as suas qualidades e, no que concerne à comida e bebida, os húngaros percebem disso e MUITO! Talvez mesmo mais do que qualquer outra nação. E é por isso que o mundo é maravilhoso e se torna interessante viajar. Para além do mais: as salsichas vão muito bem com cerveja, não é? Dois produtos típicos, cada um com excelentes qualidades e que se complementam. Dois excelentes exemplos de como não precisamos de um tecnocrata de Bruxelas para nos ensinar a elaborar produtos tradicionais e com grande valor. Eu tenho para mim que a boa comida e a boa bebida conseguirá sobreviver e permanecerá para sempre nos nossos corações… tal como aconteceu comigo quando experimentei pela primeira vez o Vinho do Porto, que me conquistou para todo o sempre. Dito isto, mergulhemos então na realidade das microcervejarias da Hungria.

Combinei um encontro com o Sr. Andras Kovacz, o presidente do clube de coleccionadores de itens cervejeiros de Budapeste. A data aprazada foi uma sexta-feira, 1 de Fevereiro, às 09:30, na Rua Kiniszi, mesmo no centro de Budapeste. Mesmo em frente a uma cervejaria chamada Kaltenberg. Mas a visita não seria a esse espaço, apesar dos meus caros leitores irem ter novidades acerca dessa companhia em breve. Hoje, a visita far-se-á a uma zona que fica a uns 15-18Km a noroeste da cidade, na região de Peste, mais propriamente a uma pequena povoação chamada Pilisvorosvar. Após as apresentações, Andras diz-nos: “vamos depressa pois o pessoal da Rotburger já deve de estar à nossa espera”…

             

A cervejaria e o restaurante estão instalados no mesmo edifício que serve de casa à família, numa zona verde e aprazível. Em frente à cervejaria existem dois pequenos espaços ajardinados, com bancos, locais que imagino serem extremamente agradáveis durante uma tarde de Verão. Pela minha estimativa, os lugares no exterior dariam para cerca de 50 a 70 convivas. Já no interior, mais propriamente no restaurante, existem apenas 6 enormes mesas de madeira, para além do enorme balcão, localizado do lado oposto à entrada. Por trás do balcão pode vislumbrar-se uma magnífica colecção de garrafas de cerveja. Por curiosidade, procurei por garrafas checas e, sem grandes dificuldades, lá estavam elas… Kelt, Bernard… é sempre agradável descobrir os nossos embaixadores mesmo nesta pequena e remota povoação húngara. Boa!

            

Sem estar a exagerar muito, pode-se dizer que o restaurante faz lembrar um grande aquário. Não querendo ofender ninguém, o espaço recorda-me um local que existe na minha cidade natal de Teplice, no distrito de Dubi, mais exactamente na estrada internacional E55. As mesmas salas espelhadas, o mesmo tipo de vidros… só que em vez de aquário nós chamamos-lhe “kurvarium” (prostituário)! Pois, é isso mesmo que estão a pensar. É um local com raparigas nas montras, ao género do “red light district” em Amsterdão. Felizmente, é uma actividade que, pelo menos nesses moldes, tem vindo a decair. Não seria tão bom que um dia esse espaço se tornasse numa maravilhosa cervejaria?!! Seria como a transformação da abóbora na carruagem da princesa…

Bom, voltando à nossa cervejeira, apenas posso dizer que tanta luz e um espaço tão amplo possibilitam diversas vantagens. No mínimo, permite-nos ver se estará ou não a chover lá fora, bom motivo para pedirmos mais uma cerveja! Ou então possibilita que estejamos com um olho na cerveja e outro na porta da entrada, não vá a nossa mulher aparecer e não termos tempo para encontrar uma boa desculpa para estarmos atrasados para o jantar…

Chegou a hora de nos sentarmos a uma das mesas e aproveitar a companhia do Sr. Jaki Andras, que nos vai contando a história e conceito desta microcervejaria. Trata-se de um homem ainda jovem que, segundo me pareceu, dá grande importância à sua imagem: pele bronzeada, tattoos, cabelo cheio de gel… Trouxe-lhe, como lembrança, duas garrafas de uma cerveja do norte da Boémia, a Breznak (14º de extracto), para além de umas bases para copos para figurarem na colecção. A sua narração leva-nos desde os primórdios da cervejeira, fundada pelo seu pai, Attila Jaki, um engenheiro que na década de 80 trabalhou em África e no Médio Oriente. Por volta de 1988 começou a pensar onde poderia investir as suas poupanças e as primeiras ideias que lhe surgiram foram uma panificadora ou uma pequena cervejaria. A queda do comunismo e a entrada num mercado concorrencial e livre a partir de 1989 levaram-no a optar por um caminho. Felizmente para nós, apreciadores de cerveja, a ideia que prevaleceu foi a da cervejaria e assim surgiu a Rotburger! Depois deste intróito, está na hora de fazermos uma visita guiada às instalações da companhia. Vamos entrar?

         

Como vos referi anteriormente, este aquário não é apenas prático mas também possui uma estética bastante agradável. A partir do restaurante podemos observar, ainda que através de um vidro, os boiling kettles: dois enormes e brilhantes tanques de aço inoxidável, comprados na Alemanha em segunda mão. Um excelente negócio, pareceu-me. A primeira cerveja foi aqui feita em 1993. Após testemunharmos de perto a beleza destes tanques, eis chegada a altura de visitarmos a zona onde se encontram os tanques de fermentação. Aí, ainda se sente aquele aroma especial no ar, sinal de que a última fermentação se realizou há muito pouco tempo. A divisão seguinte é onde se faz a maturação, com tanques para lagering. Finalmente, a última sala é ocupada por um armazém com barris de cerveja, paletes de garrafas e outros produtos que se esperaria encontrar numa cervejaria. De facto, produzir cerveja é uma arte ancestral, sendo que muitos dos utensílios se mantêm na mesma desde há vários séculos (pelo menos se pensarmos a nível da produção artesanal ou das microcervejarias). Só tenho pena de não ter tirado fotografias da máquina de enchimento de garrafas. Era realmente única e nunca tinha visto nada similar. Enfim, parece sina eu esquecer-me frequentemente de tirar aquela fotografia para vos mostrar… No meio de tanta excitação é sempre difícil estar completamente concentrado e fazermos tudo o que queremos. Mas vamos aprendendo com as nossas falhas e qualquer dia espero ter aquele espírito dos jogadores de poker: frio, distante e concentrado!

        

Bom, está na hora de abordarmos mais concretamente as cervejas locais. O pormenor mais curioso a destacar reside no facto das cervejas serem filtradas, o que para mim é uma pena pois parece-me que o melhor da cerveja se perde nesse processo. Aliás, caso um dia eu seja o destacado dono de uma microcervejaria, prometo-vos que a primeira regra da casa será a inexistência de filtros. Mas como ainda não sou, a única coisa que me resta fazer é abanar a cabeça em sinal de reprovação. É engraçado que quando pedi um copo com a cerveja ainda por filtrar, me perguntaram várias vezes se realmente a queria assim, alertando-me que ela poderia parecer lamacenta!!! É claro que quero! Na verdade, é esse um dos motivos que me fez fazer esta visita: essa cerveja opaca e não filtrada. Caso contrário, teria sido preferível visitar a mais do que comercial Dreher Brewery, em Budapeste. Mas acho que eles ficaram a olhar para mim como se eu fosse um louco…

                    

Actualmente eles produzem duas marcas diferentes: uma lager clara (világos) de 12º de extracto e uma lager escura (barna) com 13º de extracto. Infelizmente, não produzem cervejas de fermentação alta. Estas duas cervejas estão sempre disponíveis, quer à pressão, quer em garrafas de plástico de 1lt, 1,5lt e 2lt. Não produzem cervejas especiais, nem em ocasiões comemorativas. Para completar o quadro, resta referir que utilizam lúpulo da região de Hallertau (Alemanha) e malte de Michalovce (Eslováquia). A cerveja está disponível no pub da cervejaria e em mais 4 restaurantes dos arredores de Budapeste. Finalmente o preço: um copo de 0,5lt custa 230 Forints (cerca de 1 Euro).

O mestre-cervejeiro Andras Jaki, apesar da aparência algo suspeita, revelou-se uma pessoa extremamente simpática e conhecedora de todo o processo cervejeiro e mais alguns truques! Para além do mais, ofereceu-me tantas garrafas de cerveja que, pela primeira vez na minha vida, tive de as deixar para trás! Mesmo assim ainda trouxe umas 3-4 cervejas para oferecer aos amigos lá da terra. Irão ajudar-me a explicar esta minha aventura por terras húngaras. O único aspecto negativo desta minha visita terá sido o facto de ter ficado constipado e, devido a isso, não ter conseguido apreciar plenamente os aromas e sabores do modo que gostaria. Mas 39,5º de febre não são uma grande ajuda. O que conta é que a minha missão estava cumprida.

         

Conclusões? Foi uma viagem bonita, com locais muito aprazíveis e pessoas agradáveis. Obviamente que as cervejas que experimentei foram ligeiramente diferentes daquelas a que estou habituado: menos lupuladas, menos leves… mas acima de tudo mantêm-se saborosas e pude testemunhar que são feitas com a mesma paixão que costumo ver no meu país. A hospitalidade local foi também magnífica. E o facto das cervejas serem diferentes das da Rep. Checa apenas torna a coisa mais interessante. É por isso que viajamos e queremos conhecer novas coisas, novos aromas e sabores. Portanto, apreciem a vossa “világos” sem receio e, para tornar a coisa ainda mais autêntica, que tal pedirem uma “halaszle”, a famosa sopa vermelha dos pescadores?!

Mas bom, sobre a Hungria falaremos um pouco mais numa próxima reportagem, na altura em que visitarmos a Kaltenberg Brewery, localizada mesmo no centro de Budapeste. E aí a história já será diferente. Esqueçam os locais idílicos e calmos desta nossa visita e imaginem o quotidiano apressado das grandes cidades. Algo que até se nota nos preços, exponencialmente mais altos! Mas, como disse, isso fica para uma próxima oportunidade. Entretanto, se quiserem ficar a conhecer mais sobre a Rotburger, visitem o site oficial em www.rotburger.hu. O design é bastante agradável, sendo que o único senão é estar exclusivamente em húngaro. O site até tem música típica da Hungria para vos acompanhar durante a vossa visita, para além de um pequeno vídeo educacional sobre o processo de elaboração de cerveja. E por agora é tudo!!! Szia ban Budapest!

Com um abraço do,

Libor Vojáček, o CzechBeerMan, CzechBeerMan@seznam.cz

(Repórter cervejeiro e coleccionador, Teplice, República Checa)

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