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CZECHBEERMAN - REPORTAGEM Nº 4

A Ffos y Ffin Brewery de Capel Dewi, Carmarthen ,  País de Gales

Caros leitores, amigos do Brasil e de Portugal,

É para mim um prazer poder partilhar mais esta experiência convosco. E hoje, mais uma vez, longe da minha terra natal. Aliás, significativamente bem longe. “Croeso i Gymru”, ou seja, “Bem-vindo a Gales”! Sejam pois bem-vindos a este país ligeiramente montanhoso, limpo, ordenado e muito hospitaleiro, com maravilhosas paisagens naturais e sebes perfeitamente aparadas que delimitam o espaço das manadas de vacas e rebanhos de ovelhas. É também um país amante do Rugby e das Ales. É, ainda, um país diferente, com hábitos diferentes. Infelizmente para os apreciadores de Lagers, este não será por certo um destino de sonho. Apesar de estarem disponíveis na maior parte das lojas (havendo mesmo a Pilsner Urquell e a Staropramen), sejam elas grandes ou pequenas, não se vê muitas pessoas a comprar ou sequer a beber. Pode-se pois dizer que as bocas britânicas foram desenhadas para degustar Ales e contra isso nada a fazer! E com isso não se pode inferir minimamente que os britânicos não gostem de cerveja. Gostam é da sua cerveja!!! O povo de Gales gosta da sua terra e recebem qualquer pessoa com um sorriso na cara, mesmo estrangeiros totalmente desconhecidos… As zonas onde existem caixotes do lixo estão consideravelmente limpas e não se vê ninguém a abandonar os seus electrodomésticos ou sofás na rua. Nós, os Checos, podemos produzir das melhores Lagers do mundo, mas em termos de consciência ambiental… E os meus amigos, nos vossos países, também sentem essa “consciência” ambiental? Por exemplo, o Porto não será por certo a cidade mais limpa do mundo. Mas compensa em beleza e será com certeza mais bonita que a maior parte das cidades de Gales. Aliás, espero um dia vir a sentar-me nas maravilhosas margens do Douro a saborear o vosso delicioso vinho doce…

Ao passear nas bonitas ruas de Gales, vários pensamentos me ocorrem. O que é que eu preferiria perder? O que seria mais fácil de abdicar? Se as maravilhosas cervejas da minha terra ou o extraordinário ordenamento de Gales. Uma escolha difícil!!! Toda esta introdução pode-vos parecer propaganda e que não tem lugar numa reportagem sobre cerveja. Mas não é bem assim. Uma empresa cervejeira é, em geral, o retrato das pessoas, do local e do país onde se encontra. Aliás, mencionar apenas a questão cervejeira sem abordar alguma da cultura do país seria quase um crime. Conhecendo as pessoas e os costumes fazem-nos perceber a paixão que por aqui existe pelas Ales. É como o “Vepro-knedlo-zelo”, um típico prato checo que, não haja dúvidas, sabe melhor se degustado em Praga.

       

Avançando um pouco no relato, combinámos um encontro com o Sr. Steve Smith, o dono da Ffos y Ffin Brewery. E lá estava ela à nossa espera, na estação de comboios de Carmarthen, vestido com a sua indumentária de trabalho: um género de fato-macaco vermelho e umas altas botas de borracha. Percebe-se que não estamos em presença de uma pessoa que trabalhe atrás de um PC, mas sim do mestre que está constantemente a controlar os tanques de fermentação. Deve-se mesmo acrescentar que, para aqueles que estariam à espera de uma cervejaria histórica, muito aperaltada, localizada no centro histórico e cheia de turistas à porta, este relato será por certo uma desilusão. Trata-se de uma cervejaria simples onde o único propósito é produzir boa cerveja! A beleza e ordenamento típico das localidades galesas acaba um pouco por se perder junto à fábrica, que fica localizada fora da cidade, algures no meio nada! Parece mesmo um modelo para “Gotham City”! Mais: não existe um único sinal ou anúncio luminoso que denunciem a existência da Ffos y Ffin. Mas ela existe, isso podem estar certos! Ao entrar, deparamo-nos com uma pequena fábrica, quase artesanal e sem o glamour de muitas cervejeiras checas, que mantêm os mesmos edifícios desde épocas medievais. Parece que dei um grande salto temporal (haha).

       

Todo o hall da cervejeira é dominado por um enorme “boiling kettle”, o tanque onde se processa a fervura. A produção anual é de 120.000 litros. A cerveja é distribuída para cerca de 50 a 60 pubs locais, assim como para alguns restaurantes e para uma pubhouse de Londres chamada “Prince of Wales”. A área esquerda da cervejaria é ocupada pela sala de fermentação, apesar de ser muito diferente dos locais de fermentação a que estou habituado. A temperatura interior é quase de 20º C. Pode-se perfeitamente andar nesse local em mangas de camisa!!! Mas é uma situação normal se considerarmos que aqui se produzem cervejas de fermentação alta. Pudemos então observar que tinham acabado de produzir mais um lote que, curiosamente, apresentava um aspecto não muito diferente das Lagers (baixa fermentação). Entretanto, o Sr. Steve está a servir uma cerveja directamente do tanque para eu experimentar. Estamos agora na sala onde se faz a maturação das cervejas. Em breve irei degustar a minha primeira Ale galesa e em grande estilo! Servida no copo da própria cervejaria. É habitual referir-se que este formato de copo é encontrado em quase todos os bares e pubs de Gales. E pude confirmar isso: apenas um tipo de copo! A companhia elabora 7 tipos de cerveja, todas elas Ales. Enumeremos algumas de forma aleatória: Paxtons Pride (vencedora de um concurso local de cervejas em 2006), Cwrw Caredig, Dylans Choice, entre outras. O volume alcoólico é, em todas, próximo dos 5%. Pessoalmente, achei-as todas muito parecidas. Diz-se que a mais popular é a Dylan’s Choice (4,4% ABV). Porquê, não lhes sei bem dizer…

Mas houve uma coisa que me deixou extremamente satisfeito, mesmo mais do que a cerveja que estava a degustar no momento. A minha alma gémea. O nosso querido Embaixador. Escondido aqui, numa das regiões mais remotas do Reino Unido, dentro de um saco especial de alumínio, descansava um nosso bem conhecido: o lúpulo de Zatec/Saaz (http://www.mesto-zatec.cz). A sua fama é realmente global. A qualquer lado que eu vá, as pessoas utilizam-no ou pelo menos têm conhecimento da sua existência. Deixa-me um sentimento de orgulho que, de imediato, me fez sentir melhor.

      

Relativamente ao malte, este é originário da Inglaterra, mais propriamente da região de Wiltshire. É uma curiosa mistura internacional de ingredientes. Basicamente, o único ingrediente verdadeiramente local é a água. Para além da própria arte de fazer cerveja o que, mesmo assim, pode ser questionável (haha). Sem ofensas, claro! Os dois mentores deste projecto são verdadeiros apaixonados pela cerveja e não tenho quaisquer dúvidas que irão ter muito sucesso e prosperidade. Esta é mesmo uma “Cervejeira a Dois”. Para além do Steve, que já apresentámos, temos ainda o Sr. Glyn Lenton, o responsável pelo processo industrial na companhia. Curiosamente, antes de se lançar na área cervejeira, o Sr. Glyn era um simples agricultor! Interessante mudança de vida. Tanto um como o outro foram extremamente simpáticos e disponíveis para falarem acerca da cerveja e do seu processo produtivo. A sua história é idêntica a muitos outros produtores: interessaram-se pelo assunto, frequentaram alguns cursos sobre homebrewing e atiraram-se logo ao desenvolvimento do projecto. Rapaziada corajosa! A primeira cerveja comercial foi produzida em Agosto de 2006. Actualmente, a administração é constituída por três elementos. Não nos podemos esquecer do Mikey, o cão da cervejaria! Haf, haf….

             

Noutro local da fábrica encontra-se a marca que procede à colocação dos rótulos, assim como outras tarefas de finalização. É uma Langguth, em segunda mão, mas ainda assim bastante funcional e fiável. Um bom produto alemão. Ao lado fica uma pequena zona de armazenamento, temos ainda a casa de banho e… é tudo ou quase tudo! Por aqui não existe um grande escritório com sofás de pele e um centro para receber os visitantes. É um negócio quase familiar e o Steve e o Glyn encarregam-se de quase tudo na fábrica, desde a produção até à distribuição (pode-se encontrar cervejas da Ffos y Ffin em alguns supermercados de Gales). A posição de Presidente ou de Director de Marketing é algo inexistente nesta companhia. Não há tempo para tais futilidades.

         

A visita estava assim concluída. Entra-se por uma porta e em breve está a sair-se por outra. Junto à saída, encontrei um vasto leque daqueles objectos e subprodutos resultantes da actividade cervejeira e que tanto adoro. Um bom local para encetar uma última e agradável conversa com o Steve. Neste caso, ele queixava-se das dificuldades que sempre encontrou na contratação de pessoal. Para além do pouco interesse, os trabalhadores britânicos parecem ter mais direitos do que deveres. Um exemplo disso é a nova lei que estipula os prazos de licença devidos por paternidade. Para além das mulheres, também agora os homens podem ficar em casa a cuidar dos seus filhos durante várias semanas e ainda serem pagos. Se por um lado se trata de uma medida social muito positiva, para as pequenas empresas, como esta é, não pode deixar de ser uma dor de cabeça. Aliás, o Steve contou-me que chegou a ter um trabalhador que, durante um ano, entre baixas por doença e diversas licenças, trabalhou apenas 30-35 semanas. Independentemente dos avanços sociais que essa situação possa representar, isso implica igualmente encargos muitas das vezes insuportáveis para as pequenas e médias empresas, que estão a contar ter um trabalhador para… trabalhar! E não propriamente para ficar em casa. Mas esta é apenas a minha opinião… posso estar enganado.

        

Resumindo e concluindo: esta experiência foi agradável e muito valiosa. Para além desta, tive oportunidade de visitar outra cervejeira de Gales mas sobre ela falaremos numa próxima ocasião. Pude experimentar diversas Ales, o que me ajudou a mudar a opinião sobre este tipo de cervejas. Antes, eu era tão teimoso como uma mula, podendo mesmo ser apelidado de “Lager Boy”. Achava quase impossível existir cervejas com tanta qualidade como as Lager. É claro que ainda adoro as minhas Lagers, mas confesso que as Ales não lhes ficam nada atrás. Diferentes, mas ainda assim muito boas. O carácter frutado das Ales, as suas diversas tonalidades e corpo, as notas do lúpulo, enfim, tudo são bons motivos para se apreciar uma Ale. Pena que esta forma de produção quase não exista no meu país. Apenas um pequeno número de companhias as produzem e comercializam. De facto, após meses e meses a beber somente Lagers, mudar para uma Ale pode ser refrescante e inspirador. Seria idêntico se comêssemos sempre a mesma coisa, fosse ela caviar ou os melhores queijos do mundo. Por vezes, uma simples fatia de um bom pão é suficiente para nos preencher e satisfazer.

As Ales são pois uma mudança excelente para quem está, como eu, habituado a apenas beber Lagers. Esperem pouca formação de espuma, por exemplo, e preparem-se para encontrar diversos formatos de copo, consoante o estilo e mesmo a marca. Será por certo um prazer beber uma Ale a partir de uma típica caneca britânica (robusta, pesada e com uma pega). Se a prova se fizer a partir dum copo multi-funções, grande parte da magia estará perdida e uma experiência magnífica não passará de uma boa “porcaria”. O copo da imagem servirá antes, segundo creio, para um bom batido de banana durante umas férias nas Caraíbas! É claro que podem existir opiniões contrários pelo que estejam à vontade para comentar, sugerir ou aconselhar. Se quiserem saber mais sobre a produção das cervejas do meu país ou falar sobre as vossas experiências com as Ale, os tipos de copos mais correctos, formas de servir, etc., não hesitem em me contactar. Eu agradeço.

Para aqueles que queiram saber mais sobre esta companhia, podem visitar o site oficial em http://www.ffosyffinbrewery.co.uk. Serão por certo bem recebidos em Capel Dewi, Gales. Até breve…

Com os melhores cumprimentos,

Libor Vojáček, o CzechBeerMan, CzechBeerMan@seznam.cz

(Repórter cervejeiro e coleccionador, Teplice, República Checa)

http://album.inmail.cz/@my-album (cervejas de todo o mundo que já degustei)

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