links favoritos

 

 

 

 

CZECHBEERMAN - REPORTAGEM Nº 7

A produção cervejeira por terras Checas – A Microcervejaria Novosad (Harrachov)

Amigos leitores, caros apreciadores de cerveja,

O calendário marca 1.1.2009 e eis-me novamente sentado a escrever uma reportagem cervejeira que espero que vos agrade. Mas antes, aproveito para vos desejar um óptimo ano e acima de tudo espírito positivo e muita saúde. Pois se tiverem isso, terão por certo tudo! Desejo também ao webmaster do Cervejas do Mundo a continuação do maior sucesso para o site. E, claro, a todos desejo… muita espuma (cervejeira, obviamente).

Para qualquer lado que nos viremos a palavra mais comum de se ouvir é “crise”. Mas por vezes torna-se muito difícil observar essa mesma crise! Pelo menos, os contentores de lixo continuam a transbordar, muitas vezes com produtos ainda novos ou mesmo por utilizar. Para mim, a crise tem um significado diferente. Pelo menos na minha imaginação, uma crise real implica pessoas a pedir ou longas filas para a sopa dos pobres, tal como aconteceu nos E.U.A em 1930. Este processo de crise parece-me mais uma criação artificial de um fenómeno de crise/não crise, causado por um pequeno número de ladrões, especuladores e por milhões de pessoas que foram atingidas pela seguinte ideia perversa: “mesmo que eu não possa comprar isto, sempre posso pedir um empréstimo e pagar em prestações”! Enfim, crise à parte, a indústria cervejeira (ou pelo menos alguma) parece estar a suportar bem este período mais difícil. A boa cerveja continuará a chegar até aos consumidores, mesmo que para a pagar, tenhamos de ir ao fundo dos nossos bolsos. Para além do mais, conheço pelo menos 5 a 6 novas microcervejarias que surgiram já este ano, pelo que deixemos por momentos a crise de lado pois… a cerveja está pronta a ser servida.

          

Desta vez, convido-os a visitarem comigo a Krkonose Mountain (Montanha Gigante). Já alguma vez ouviram falar deste lugar? Quem esteja um pouco familiarizado com a prática de ski jumping, por certo já ouviu falar no Harrachov Resort. É um dos resorts que fazem parte do circuito mundial de ski jumping. É aí que, debaixo do “mamute” (alcunha que os locais dão ao maior trampolim) poderemos encontrar uma interessante microcervejaria que tem este nome enorme: Sklarna a minipivovar Novosad & Sin Harrachov s.r.o. Czech Republic, que significa literalmente Fábrica de vidro e microcervejaria Novosad & Sin Harrachov Ltd. República Checa. Ou seja, para além da cerveja, aqui também se realizam outras actividades. Sejam portanto bem-vindos! Entremos, pois. Logo à entrada, existe um esquema muito bem executado que explica como a cerveja é feita. Mesmo os afectados por qualquer sintoma de imbecilidade (ahah – desculpem) conseguirão perceber este maravilhoso processo. É só seguir as setas até se atingir o estágio final: na casa de banho, a libertar a tensão de tanta cerveja!

          

O nosso anfitrião para hoje é o Sr. Libor Soukup, um homem novo, de 26 anos, cuja formação na arte cervejeira é totalmente autodidacta. Apesar da frieza inicial, acabámos por ser esplendidamente recebidos. De facto, após se ter apercebido que eu e os meus amigos éramos uns apaixonados por cerveja e pela sua cultura, revelou-se um magnífico anfitrião, pelo que o problema foi mesmo deixar vir-nos embora! Para além da visita à cervejaria, mostrou-nos as principais atracções locais e a cerveja foi toda de graça. “Bebam o que quiserem”. Obviamente que nós agradecemos. É claro que o parvo que ficou com a obrigação de trazer o carro na viagem de regresso fui eu! Pudemos visitar quase tudo, excepção feita ao Banho de Cerveja, cuja chave não estava disponível. Foi uma pena mas fica para a próxima. O complexo do resort é muito grande, compreendendo uma fábrica de vidro, uma microcervejaria, o spa com o banho de cerveja, um restaurante e um hotel. Torna-se pois difícil de saber por onde começar… Mas comecemos pelo mais óbvio: as caldeiras de fervura. Estas estão localizadas a um canto do restaurante, pelo que é frequente os visitantes e comensais poderem observar o processo de produção de cerveja. É um tanque revestido a cobre com capacidade para 1200 litros. Ficámos sentados num piso superior, o que permite uma melhor visão da sua beleza. A primeira cerveja de teste foi aqui elaborada a 23 de Novembro de 2001, mas por essa altura ainda faltavam construir algumas infra-estruturas e nem tudo estava licenciado, pelo que se deve considerar o ano de 2002 como a data do verdadeiro e definitivo início. O restaurante, localizado no primeiro piso, tem capacidade para 180 pessoas. Pode comer-se bem, pode beber-se bem… e se da próxima vez o atendimento for ligeiramente mais simpático e sorridente, pode dizer-se que tudo está perfeito. Sem erros.

         

A partir do restaurante é possível aceder a uma espécie de balcão onde se pode observar o trabalho dos mestres vidraceiros junto aos fornos. E verdade seja dita: só esta experiência já seria suficiente para justificar uma visita. Um trabalho único, de total mestria artesanal. Um “grande concerto”, quase como uma sinfonia. A matéria-prima ganha formas extraordinárias nas mãos destes artistas. De uma massa mole e incandescente começam a surgir verdadeiras obras de arte, com formas perfeitas, moldadas a partir de sopros e de cortes de tesoura, quase como se estivessem a cortar spaghetti. É um processo de cortar, moldar, colar, torcer… enfim, simplesmente assombroso. A maior parte da produção é exportada para os E.U.A.. O que é curioso é que ao mesmo tempo que trabalham, estes artesãos vão bebendo a excelente Hutska (‘Vidraceiro’), a cerveja de 8º produzida nas imediações. Enquanto assistia a este “concerto”, apercebi-me da pouca importância que damos às coisas. O trabalho que aqueles homens estavam ali a ter para produzir, por exemplo, um copo, algo que é tão pouco valorizado nas nossas sociedades. E ali estavam eles, esforçados artistas a produzirem peças como manda uma tradição com mais de 296 anos!!! Mas como não somos mestres vidraceiros mas sim apreciadores de cerveja, eis chegada a hora de deixarmos para trás esta bonita oficina e deslocarmo-nos à cave, ao local onde a cerveja é feita. De facto, o copo pode ser muito bonito, com uma silhueta fantástica, mas ficará por certo muito mais interessante com uma grande e densa espuma branca a coroá-lo… (haha)…

         

A adega da cervejaria tem o aspecto que podem observar na fotografia acima. Apesar de lhe chamar adega, fica ao mesmo nível da estrada e do parque de estacionamento. Neste espaço podemos encontrar três tanques de fermentação, onze tanques de maturação e seis tanques pressurizados. Tudo em aço inoxidável e fabricado pela companhia checa ZVU a.s. Hradec Králové. A levedura que utilizam é-lhes fornecida pela Konrád Brewery (a companhia cervejeira mais próxima, já de alguma dimensão) e a água é de origem local, de Bily (Branca) Hill. A qualidade desta água é reconhecida há décadas, sendo que o seu transporte para a cervejaria se faz por canalizações de madeira de olmo! Em termos estatísticos, a produção desta microcervejaria em 2008 foi de dois mil hectolitros. É normal… os mestres vidraceiros estão sempre cheios de sede… imaginem trabalhar com tanto calor!!!....

O Sr. Soukup continua a falar e a falar… é algo que se vê que lhe dá prazer, tanto quanto a sua profissão. E isso reflecte-se na sua cerveja, que é de boa qualidade. Com bonita espuma. Em geral, produzem três tipos diferentes de cerveja: a loura “Hutska 8” (Glassmaker’s) 8º extracto; a também lager “Frantiskuv Lezak” (Franc’s Lager) com 12º de extracto; e a escura “Certovske Pivo” (Devil’s Beer). E se houver um motivo, vontade ou uma comemoração anual, elaboram outras cervejas especiais. O que, refira-se, não é muito comum. Tudo o que é produzido é bebido localmente. Não poderão encontrar esta cerveja em nenhum outro pub ou restaurante. Mas é possível comprar umas garrafas para levar na loja do complexo. Cada garrafa de 0,75cl custa cerca de 30 CZK (1,20 €). Fomos antecipadamente avisados que a mesma garrafa custava mais 4 CZK (0,15 €) se fosse comprada no restaurante. Obrigado pelo aviso! Se preferirem, podem comprar um garrafão de plástico de três litros da Frantiskuv Lager. Boa para as festas. A área de armazenamento é boa pelo que muito dificilmente a cerveja se esgotará. Há ainda a possibilidade de comprar uma caixa de cartão com uma mistura de quatro garrafas, prontas a levar. Na lateral dessas caixas, há ainda espaço para uma brincadeira sobre as 23 razões pelas quais as cervejas são melhores do que as mulheres! Que estranha comparação… Pessoalmente, gosto de ambas. Mulheres e cervejas. É por isso que certas frases machistas típicas de ambientes pub não se encaixam na minha maneira de ser. Aliás, porque é que se tem que preferir uma à outra… porque não apreciar as duas?! Bom, mas como piada (as 23)… não está má. Permitem-me que sorria? Haha.

            

Conclusões: quem gosta de cerveja dará por bem empregue o seu tempo. Mesmo os coleccionadores de memorabilia cervejeira terão muita coisa com que se entreter. Só uma chamada de atenção: como também estamos numa fábrica de vidro, quase tudo é feito neste material, sejam bases para copos, cinzeiros e, claro, copos (haha)… tudo adquirível como souvenirs.

Se tiverem sorte e o mestre cervejeiro estiver num dia inspirado, podem também tentar comprar uma colecção de rótulos de cervejas locais. Da nossa parte, só podemos agradecer a disponibilidade e gentileza com que nos recebeu. Foi muito agradável poder ver o processo de produção do vidro, ainda que a visita tenha ocorrido a um Sábado. Pudemos também observar a velha mas ainda funcional turbina, localizada na parte de trás da cervejaria e que continua a fornecer energia quer à fábrica de vidro, quer à cervejaria. Pergunto-me também em que outra altura da minha vida terei a possibilidade de pegar num vaso de cristal que custa aproximadamente 35.000 CZK (1.200 €). Era bastante pesado e se porventura o tivesse deixado cair, é bem provável que ainda hoje estivesse a varrer o chão, lavar pratos ou carregar barris na cervejaria de Harrachov!

          

Estes são apenas alguns dos motivos de interesse desta maravilhosa região. Para visitar, existe ainda o Museu do Vidro ou então o Spa de Cerveja. Este é um espaço muito especial, onde se podem tomar banhos em jacuzzis cheios de cerveja. E as cervejas (para beber, entenda-se) estão incluídas. Este spa pode ser desfrutado sozinho (700 CZK por pessoa – cerca de 27 €) ou então com a vossa cara-metade. Existe um pacote especial para duas pessoas chamado Love Story Spa por 1300 CZK (51 €) que me pareceu muito romântico. Infelizmente, os companheiros da minha visita foram os meus amigos George e Jan… ou seja, este banho talvez não fosse a melhor opção… haha.

           

Tudo isto e muito mais pode ser visto no site oficial da companhia em www.sklarnaharrachov.cz. O dono da fábrica e da cervejaria, o Dr. Frantisek Novosad, idealizou um local muito interessante e continua em busca de novas atracções e desafios. Da minha parte, desejo o melhor dos futuros para esta microcervejaria. A visita foi muito agradável, com um dia lindo, cheio de sol e sem uma única nuvem; magnífico para se apreciar convenientemente as vistas da montanha. Para além do mais, Harrachov dista uns meros 8 Kms da pitoresca vila polaca de Szlarska Poreba. Ou seja, é logo a seguir à fronteira. Para dizer a verdade, isto já nem é bem assim. Que fronteira? Já não existem fronteiras, visto os dois países estarem a usufruir das vantagens do Acordo de Schengen, pelo que a viagem é ainda mais fácil. Mais uma razão para se visitar esta região. Quem sabe não podem mesmo comer uns Bigos ou Golobki? Não me digam que não conhecem estes deliciosos pratos polacos?? Vá, está na altura de ficarem a conhecer…

Com os melhores cumprimentos,

Libor Vojáček, o CzechBeerMan, CzechBeerMan@seznam.cz

(Repórter cervejeiro e coleccionador, Teplice, República Checa)

http://album.inmail.cz/@my-album (cervejas que já degustei)

http://album.inmail.cz/@beer-articles (colecção de artigos cervejeiros)

Google