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vamos falar com... A FALKE BIER

Foi com muito prazer que, desta vez, estivemos à conversa com Marco Falcone, da microcervejaria Falke Bier. Para quem ainda não conhece, a Falke é uma pequena produtora da região metropolitana de Belo Horizonte que, para além de fantástico chope, produz também a já muito conceituada Falke Tripel Monasterium.

Em resposta às nossas perguntas, Marco Falcone mostrou não só a sua excelente capacidade de comunicação, como também não evitou abordar temas mais polémicos, caso da tributação excessiva às pequenas cervejarias ou as constantes fusões e aquisições que assolam o mercado cervejeiro brasileiro e mundial. Aliás, este artigo apresenta pormenores deliciosos e que o tornam, sem desprimor para as outras, numa das melhores entrevistas que já efectuámos. Destaque para as propostas de harmonização e para a história da India Pale Ale que, de uma forma tão interessante, nos é contada pelo Marco. O meu obrigado a ele.

                  

CervejasDoMundo (CdM) - O gosto pela produção de cerveja artesanal e por cervejas diferenciadas foi herdado de família ou surgiu de um outro modo?

Falke Bier (FB) - Nossa família não tem tradição cervejeira, a paixão nasceu quando fiz meu primeiro curso de cerveja caseira, em 1988. Como gostei muito e o produto que produzi teve ótima receptividade, comecei a me aprofundar estudando intensivamente tudo que havia disponível. Já naquela época comecei a ousar receitas.

CdM - Da Cirvizia Aquila até à Falke Monasterium muitos anos se passaram. Como tem sido a evolução da Falke Bier e do próprio Marco Falcone como mestre-cervejeiro?

FB - Da Cirvizia Aquila ao projeto Falke Bier houve um hiato de 12 anos. Em 2000 ocorreu o reencontro com o mundo das cervejas especiais e aí um intenso crescimento. Foram visitas a diversas cervejarias, participação em cursos, aprimoramento do paladar em degustações sensoriais, intercâmbio técnico com outros cervejeiros, apoio e acompanhamento na produção de homebrewers, harmonizações de cervejas com alimentos em eventos gastronômicos, uma reciclagem constante que a cada momento nos mostra o quão pouco sabemos e o tanto que temos a aprimorar.

CdM - Antes de instalar a Falke em 2004, sei que fez muitas viagens, em especial pela Europa. Quais foram as suas maiores fontes de inspiração?

FB - Inicialmente fomos "cooptados" pela escola Alemã. Foi um caso de atração fatal, já que as cervejas que tínhamos fabricado no passado pertenciam a esta escola e ao chegar na Europa, ao degustar a primeira cerveja, soou o alarme da memória gustativa. Tanto é que iniciamos fabricando cervejas de estilo alemão. Em seguida, a escola Belga. As variações e a complexidade encantam a todos que se inserem neste mundo das cervejas especiais. Finalmente, a escola Inglesa, inconfundível por suas cervejas de alta personalidade. No entanto, é bom ressaltar que nenhuma destas três escolas suplanta a outra, todas são excelentes dentro de suas características.

CdM - A Ambev irá fazer um grande investimento numa nova maltaria em Passo Fundo. No entanto, a Falke utiliza essencialmente matéria-prima importada, o mesmo se passando com muitas outras microcervejarias. Há ainda uma grande diferença na qualidade da matéria-prima nacional da importada?

FB - Hoje no Brasil, fora do circuito das Macro Cervejarias, existem 2 excelentes maltarias. Uma delas, faço questão de citar o nome, a Agromalte tem feito um ótimo trabalho junto às Micro Cervejarias, apresentando uma vasta carta de maltes, disponibilizando em pequenas quantidades, inclusive para os homebrewers. A qualidade de seus maltes em nada deixa a desejar com relação aos melhores maltes europeus ou americanos, mesmo porque a maior parte da cevada que utiliza é importada destas origens e malteada no Brasil.

CdM - Não sei se será por uma questão relacionada com a elevada comunidade imigrante proveniente da Alemanha, mas no Brasil continua a dar-se muita importância à Reinheitsgebot. Todavia, sabemos que das melhores cervejas do mundo, muitas delas produzidas na Bélgica, Inglaterra ou EUA, não respeitam essa lei. Qual o seu pensamento sobre a aplicação ou não dos princípios da Lei da Pureza?

FB - Muito bem colocada esta questão, é sempre motivo de polêmica. Minha posição é bastante simples: tem que se respeitar a escola. Se é escola Alemã, tem obrigatoriamente que se respeitar a Reinheitsgebot. Se for escola Belga, que prima pela ousadia e criatividade, seria uma heresia se confinar dentro da Lei da Pureza da Baviera. O mesmo digo da escola Inglesa, que por sua tradição centenária, traz receitas e estilos que há muito utilizavam outros ingredientes que não os preconizados pela Reinheitsgebot.

CdM - Como mestre-cervejeiro, existe algum estilo que ainda não tenha produzido mas que gostasse de o fazer, não só por uma questão de aprendizagem mas principalmente por desafio técnico?

FB - Em termos de desafio técnico, confesso que pretendo desenvolver uma Kriek Lambic. É um estilo de cerveja que alterna fermentação por leveduras selvagens e bactérias, em um período prolongado que pode levar 3 anos. Ao final é realizada uma última fermentação com a utilização de frutose, adicionando-se cerejas maceradas (pode-se utilizar outras frutas).

CdM - Para além do Chopp Pilsen, Chopp Red Baron, Chopp Ouro Preto e da Tripel Monasterium, há perspectivas da empresa vir a produzir outros estilos de cerveja? E há também a novidade Falke India Pale Ale…

FB - De imediato estamos preparando o lançamento da Cerveja Estrada Real IPA. Quando fomos contratados pelo Instituto Estrada Real (uma instituição que está investindo pesado no turismo em Minas Gerais, revitalizando esta estrada que transportava a partir do século XVIII, toda a riqueza de Minas - ouro, diamante e outras, para os portos do Rio de Janeiro) tínhamos que escolher um estilo de cerveja. Recorremos então à história da colonização da Inglaterra na Índia. Os ingleses, que não vivem sem sua Pale Ale, ao transportá-la para a Índia durante 3 a 4 semanas, já chegavam ao destino com a bebida azedada. Então aumentaram a lupulagem (o lúpulo tem ação bactericida) e elevaram o teor alcoólico (o álcool inibe ação microbiológica). Estava então criado o estilo India Pale Ale. Por analogia, se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses, qual cerveja seria transportada de Paraty a Diamantina, viagem que durava de 3 a 4 semanas?

Temos planos para fabricar ainda uma Vintage Ale, a médio prazo. Outros estilos também estão sendo estudados.

CdM - Sei que a qualidade dos seus produtos é um factor de primordial importância para si. Daí a produção em pequenas quantidades e longe do conceito de massificação das grandes empresas. Desse modo, o nível de produção actual é para manter? E a distribuição continuará centrada em Minas Gerais?

FB - Nosso projeto, antes de tudo é um projeto de qualidade de vida. Eu e meus irmãos Ronaldo e Juliana abandonamos todas as nossas atividades para nos dedicarmos exclusivamente à Falke Bier. Portanto, só faz sentido se houver qualidade no produto. Com relação ao crescimento, realmente há limites. Está limitado à possibilidade de estarmos à frente de todas as etapas do processo. Sempre que sentimos que nosso domínio possibilita uma expansão, crescemos um pouco, mas chegaremos a um ponto que será só manter.

Com relação à distribuição, são duas histórias: a cerveja de pressão (chopp) tem vocação de abastecer apenas o mercado local, pois não utiliza qualquer conservante nem é pasteurizado, portanto temos limitado sua distribuição apenas num raio de 150 Km de Belo Horizonte. Já as cervejas de garrafa, no caso da Monasterium, pelo fato de ser refermentada na garrafa elimina todo o oxigênio na multiplicação das leveduras, logo nunca vai oxidar e com alto teor alcoólico - 9% - inibe atividade microbiológica, tornando-a uma cerveja naturalmente de longa durabilidade, possibilitando romper fronteiras e há mais de 1 ano já é distribuida em todo Brasil. Será o mesmo caso com a Estrada Real IPA.

CdM - Pelos custos de produção, é muito difícil a um chope artesanal competir com uma marca comercial. Ainda para mais, a legislação brasileira trata do mesmo modo, nomeadamente em termos fiscais, um gigante industrial e uma microcervejaria. Como se leva o consumidor a optar por uma cerveja substancialmente mais cara? Se aposta na divulgação da qualidade, no marketing, na aparência do produto?

FB - Nosso grande desafio é formar cultura cervejeira. O consumidor só acredita e se convence que existe esta brutal diferença entre a cerveja especial e a industrial quando é informado da nova realidade. E aí é um caminho sem volta. Estamos angariando multidões de apreciadores de cerveja através de várias ações como a promoção de palestras, incentivo e fomentação de cursos, concursos, festivais, degustações, harmonizações dirigidas, visitas à nossa cervejaria, divulgações através de vídeos institucionais, difusão por mailing, entre outros. Estas ações seguramente levam o consumidor a optar pela cerveja de qualidade, mesmo que mais cara.

Temos ainda, através de atuação setorial, promovido ações junto aos órgãos governamentais no sentido de sensibilizar quanto à verdadeira devassa que é a situação tributária para nosso setor. Assumimos a Diretoria do Sindbebidas/FIEMG - Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais/Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais e conseguimos trazer para o Sindbebidas as 7 micro cervejarias do Estado. Agregamos também sob este "guarda-chuva" a Acerva Mineira - Associação dos Cervejeiros Artesanais de Minas Gerais, que envolve os Homebrewers de Minas.

CdM - A participação da Falke em diversos eventos, nomeadamente no Brasil Brau, tem sido um sucesso, pelo que pude ler em diversos meios de comunicação social. Qual a importância deste tipo de eventos na divulgação da cultura cervejeira.

FB - Parte desta pergunta está respondida no item anterior. Tenho a acrescentar que estes eventos possibilitam a interação de toda a cadeia produtiva da cerveja, gerando sinergia entre os diversos atores, culminando em menores custos em negociações, maior alternativa de opção por fornecedores, além, obviamente, da geração de mídia espontânea.

CdM - Em termos internacionais temos visto muitas fusões, sendo o maior exemplo a recente aquisição da Anheuser-Busch pela Inbev. No mercado brasileiro, as grandes cervejarias têm olhado com maior atenção para as cervejas diferenciadas e de grande qualidade produzidas pelas microcervejarias. Não espanta por isso que a Schin, num curto espaço de tempo, tenha adquirido a Baden-Baden, a Eisenbahn e a Devassa. Há alguma hipótese de isso vir a acontecer um dia com a Falke Bier?

FB - Este tipo de fusão recente, beneficia o mercado das cervejas especiais. No momento que em que as gigantes passam a atuar como Bancos, visando o lucro em detrimento da qualidade, padronizando cada vez mais suas cervejas, as especiais são valorizadas. Quanto à Falke Bier, penso que estamos fora desta área de risco. Emprestamos nosso nome à marca (Falcone=Italiano Falke=Alemão), construímos nossas instalações junto ao sítio da família e como já disse, fizemos desta empresa nossa paixão e síntese de qualidade de vida.

CdM - A lei brasileira sobre o consumo do álcool enquanto se dirige foi recentemente revista e há muita gente se queixando do excesso de rigor da nova legislação. Não se terá passado do 8 para o 80 ou acha que a sinistralidade rodoviária justifica essa medida?

FB - No Brasil temos um sério problema: o poder público não educa, não cria cultura e para desfaçatar sua incompetência, simplesmente proíbe.

E o pior, para fundamentar e convencer a opinião pública, manobra as estatísticas. Por exemplo: 80% dos acidentes são provocados por caminhões, veículos mal conservados, estradas em péssimo estado. Os outros 20%, envolvem vários outros fatores, inclusive, acidentes com motoristas alcoolizados. Dentro destes 20%, houve 40% na redução de acidentes. Vem o governo e divulga que houve redução total de 40% de todos os acidentes. Como diria Jean Paul Sartre "As estatísticas são como os biquinis - escondem o principal". Seria justo que os motoristas que manifestamente apresentem sintomas de embriaguez sejam fiscalizados. Não a campanha terrorista promovida pelo governo, tolhendo o direito de ir e vir e tratando o cidadão que está sob o domínio de suas faculdades mentais como um marginal, obrigando-o a soprar um bafômetro ou, se recusar, prendendo-o como um bandido.

CdM - A qualidade do chope artesanal permite harmonizações gastronómicas muito saborosas e sofisticadas. Vou pois pedir que nos deixe algumas sugestões para os nossos leitores.

FB -

 · Chope pilsen – Queijos de sabor menos pronunciado, como o Minas pouco curado, mussarela de búfala. Pratos a base frango, frutos do mar com sabor leve, como polvo, lula. Peixes de escama de rio.

· Chope escuro tipo dunkel – Queijos fortes como o Gorgonzola, Camembert, Parmesão. Pratos a base de carne vermelha, feijoadas, churrascos, Frutos do mar como o camarão bem temperado

· Chope bock – Queijos condimentados como Gruyére, Gouda, Parmezon, Estepe. Pratos como Salsichas, Linguiças, Joelho de Porco, Lagostas, Caças.

· Tripel Monasterium – A grande estrela para esta harmonização é o queijo Brie com Damasco. Pratos agridoces são desejados. Salmão com Repolho, Truta com Pêssego, e aí uma vasta opção.

CdM - Vê alguma hipótese da fabulosa Tripel Monasterium vir um dia a ser comercializada na Europa?

FB - A Tripel Monasterium já alcançou o território Europeu. Algumas garrafas foram levadas para Holanda, pelo pessoal da Diageo. Na Inglaterra, passou pelo crivo do Mestre-Cervejeiro Bill Simpson, que deu graduação 9 em 10 para a bebida. Na Bélgica, Bruxelas, tivemos algumas garrafas distribuídas no Moder Lambic. Vemos como clara a possibilidade de comercializá-la na Europa, porém em pequenas quantidades.

CdM - Se não tivesse uma Falke à mão, que outras cervejas você não se importaria de estar bebendo?

FB - Não me importaria é um termo suave, na verdade adoraria estar tomando, sem ordem de preferência:

1. Westvleteren 12

2. Dama do Lago Eisenbahn (receita do amigo cervejeiro Leonardo Botto)

3. Deus

4. Samichlaus

5. Estrada Real IPA

6. A Inveja de Baco (receita do amigo cervejeiro Ricardo Rosa)

CdM - As cervejas da Falke têm sido louvadas não só pelos consumidores mas também pela comunicação social e mestres-cervejeiros. Presumo que isso lhe dê ânimo para continuar?

FB - Este ponto realmente é um grande incentivo. Primeiro porque consagra nossa dedicação, garantindo que o trabalho resulta em qualidade. Depois, porque nos coloca na condição de, mesmo que em ínfima escala, colaboradores com esta cultura milenar, que apesar de alguns quererem deter para si, nunca pertencerá a uma pessoa, empresa, instituição, governo ou a quem quer que seja. Pertence à humanidade.

CdM - Planos, projectos, sonhos para o futuro da Falke Bier?

FB -  Que cada vez mais pessoas entendam e se envolvam no universo das cervejas especiais, resgatando a qualidade há muito perdida nos processo industriais. Quando se promove a cultura cervejeira, se contribui com a convivialidade, a paz, a satisfação, a sustentabilidade, o bem estar e a sociabilidade, principal característica desta bebida chamada Cerveja.

Podem visitar o site da Falke Bier clicando aqui. Mas para ficarem verdadeiramente a conhecer a qualidade das cervejas da Falke, eis o nosso conselho: experimente-as. Fica aqui um link para locais que, actualmente, vendem chope da Falke: Locais com chope da Falke Bier. Quanto à Monasterium, procure na loja online Cervejasnet e em alguns outros locais seleccionados.

Pessoalmente, desejo o maior sucesso para a Falke Bier, o meu grande agradecimento ao Marco Falcone pela simpatia e disponibilidade demonstrada e esperar que, em breve, se possa encontrar a Tripel Monasterium nas melhores lojas Gourmet da Europa e, quem sabe, do mundo.

 

P.S.: se ainda fosse necessário comprovar a qualidade das cervejas da Falke Bier, eis que a companhia ganha mais um prémio, neste caso o 1º lugar no evento Tecnobebida Award 2008 na categoria Produto Inovador, certame realizado em São Paulo. Leia o resto da notícia em:

http://www.tecnobebida.com.br/index.php?pgID=71ca21832301d0c5&xID=4

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