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vamos falar com... a CERVEJARIA FRAGA

A origem da Cervejaria Fraga remonta a 2004, ano em Sérgio Fraga, um apreciador de cervejas de qualidade, se dedicou, de forma mais profunda, ao estudo dos diferentes aspectos relacionados com cerveja, desde os estilos existentes, passando pelas características e processos de produção. Após dois anos de estudos e pesquisas, o início de 2006 marcou o começo da fabricação da Cerveja Fraga, ainda que só para amigos e conhecidos. A grande qualidade das cervejas levaram a que o projecto ganhasse pernas para andar e é assim que, chegados a 2007, vemos com muito carinho e interesse a chegada da Fraga ao mercado, sempre preservando a sua missão que é a de apresentar a cerveja de verdade, feita apenas com ingredientes selecionados e sem aditivos químicos. Uma bebida nobre, que encantará a todos que a apreciarem! Um grande obrigado ao Sérgio Fraga pela magnífica entrevista que nos proporcionou.
 

CervejasDoMundo (CdM) - Muitas microcervejarias resultam da transformação de um hobby pessoal em algo mais sério. Foi também esse o percurso da Fraga?

Cervejaria Fraga (CF) - Sim, claro! Fabrico cerveja em casa há quase dois anos, apenas para consumo próprio e para os amigos. O problema é que, quanto mais cerveja você fabrica, mais amigos aparecem... Em pouco tempo, a demanda torna-se muito grande. Alguns destes amigos acharam que a idéia tinha viabilidade comercial e resolveram capitalizar o projeto de abertura de uma microcervejaria.

CdM - O processo de instalação da Cervejaria foi difícil, nomeadamente em termos de espaço, equipamentos, etc?

CF - Na verdade, ainda está sendo! A negociação com os fornecedores dos equipamentos durou cerca de quatro meses, mas os mesmos já estão sendo fabricados agora. A aquisição do terreno só se concretizou na semana passada, depois de muita procura por um lugar que reuna as condições de fabricação com as exigências das legislações municipal e ambiental.

CdM - A apresentação da Fraga é bem cuidada, incluindo a abertura em swing-top. Qual a importância da imagem para uma cerveja como a Fraga?

CF -  Como entraremos em um nicho próprio de mercado, o das cervejas com valor e qualidade superiores às das grandes cervejarias, precisamos também ter uma apresentação marcante. Na verdade, estamos reformulando nossa logo, os rótulos e todo o material de divulgação. É claro que nem só de imagem consegue-se manter a fama; o conteúdo das garrafas também precisa estar à altura!

CdM - O vosso lema é: "A Cevada levada a sério". Acha que há cervejarias que não seguem essa ideia e, no seguimento, o que pensa você da "Lei da Pureza"?

CF - Muito se fala da importância da pureza da água para a fabricação de cerveja, sendo que algumas cervejarias vendem o conceito da localização perto de fontes minerais, mas com a tecnologia existente hoje pode-se adequar a água disponível para o padrão desejado. Eu acho que, muito mais importante, é usarmos apenas maltes nobres, como cevada e trigo, no processo de brassagem. Não pretendemos usar arroz ou milho, por exemplo, pois consideramos que são usados simplesmente para reduzir custos. Por isto que consideramos que a cevada é tão importante. Quanto à Reinheitsgebot, a Lei da Pureza Alemã, achamos válida como referência histórica e padrão de qualidade, mas não pretendemos segui-la. Ela determina que apenas malte, água, lúpulo e o levedo podem ser usados na fabricação de cervejas, mas achamos adequado o uso de outros ingredientes, se usados para um ganho de qualidade e não para redução de custos. Por exemplo, apreciamos muito a escola belga, de sabores muito variados. Estamos desenvolvendo há meses uma receita de Witbier, que utiliza sementes de coentro e cascas de laranja.

CdM - A atual produção da Fraga é para manter ou vão surgir novos estilos de cerveja, formatos ou conceitos?

CF - Estamos na fase de transição entre a produção caseira, aonde experimento muitas receitas, e a escala comercial. Completada a obra da fábrica e a instalação dos equipamentos, devemos focar em dois ou três estilos para formarmos nossa linha de produtos regulares. Nada impede que, futuramente, tenhamos novos estilos, alguns talvez sazonais (especialmente as cervejas próprias para as festas natalinas).

CdM - A água é realmente um fator determinante na qualidade da cerveja ou todos os ingredientes têm um mesmo grau de importância?

CF - Bem, acho que adiantei um pouco esta resposta em uma pergunta anterior! Mas, complementando, acho que sim, que todos os ingredientes devem ter sua importância reconhecida e estudada. Afinal, a enorme variedade de cervejas existentes (e que muitas pessoas desconhecem) deve-se às incontáveis possibilidades de combinações dos ingredientes utilizados.

CdM - A Fraga produz atualmente a Golden Ale e a Pale Ale. Curiosamente, as cervejas de alta fermentação não são as mais consumidas no Brasil. Tem sido difícil mudar os hábitos do consumidor brasileiro?

CF - Temos contado com apoio vindo de outras frentes. O consumidor aos poucos vai descobrindo a variedade de sabores disponíveis no universo cervejeiro. O número de microcervejarias existentes no país cresce a cada dia, e entre elas não são necessariamente concorrentes. Existe espaço para todas, onde o mais importante é seguir conquistando novos adeptos. Também crescem as organizações de cervejeiros caseiros, sem fins comerciais, mas que ajudam a divulgar a cultura cervejeira.

CdM - A Fraga obteve honrosos lugares no recente concurso da AcervA Carioca. As cervejas aí apresentadas poderão, um dia, vir a ser produzidas ou são apenas obras de arte do mestre-cervejeiro?

CF - No resultado final, ficamos com o sexto e sétimos lugares na categoria Estilo Livre. Para corroborar a regulariedade das duas cervejas, elas empataram em primeiro lugar no grupo em que estavam na fase classificatória! Mas, por ironia, a cerveja em que eu depositava mais confiança era a Divine Brown (o nome é provisório), uma Belgian Dark Strong Ale, que ficou em sétimo. Esta receita eu quero aprimorar para transformá-la numa possível receita sazonal, provavelmente de final de ano. A cerveja que ficou em sexto, uma Irish Red Ale, foi feita meio de improviso, por conta de falta de insumos à época da produção, mas ficou surpreendentemente boa! Isto demonstra o quanto a cervejaria artesanal é interessante. Esta receita poderia ser incorporada à linha de produção regular futuramente.

CdM - O mercado brasileiro de cervejas está em constante mutação. Ora aparecem novas microcervejarias, ora as grandes empresas se unem. Como é que tem visto situações como a compra da Cintra pela Ambev, a chegada da Sol, aposta forte da Femsa, ou a compra de microcervejarias como a Devassa e a Baden-Baden pela Schincariol?

CF - Muitas pessoas temem que as grandes cervejarias esmaguem por completo as micro. Eu acho que isto nunca ocorrerá, porque por mais que ocorram aquisições e fusões, sempre terá alguém disposto a iniciar uma nova microcervejaria e ainda há muito espaço para a expansão do mercado consumidor. O fato é que, sendo de grandes ou pequenas cervejarias, existem cada vez mais opções no mercado. A própria Ambev, odiada por muitos por "pasteurizar o sabor" de qualquer cervejaria que adquire, está agora começando a importar cervejas belgas de seu portfólio para o Brasil. Não deixa de ser uma chance imensa para que o mercado descubra novos e interessantes sabores e, com isto, passe a provar as cervejas artesanais. Tenho a impressão de que muita gente que hoje só aprecia bebidas conceitualmente "mais nobres", principalmente o vinho, está agora descobrindo o potencial de uma boa cerveja, acabando com o mito de que esta é uma bebida de qualidade inferior.

CdM - Se estivesse muito longe de casa e não houvesse uma Fraga por perto, que outra cerveja você não se importaria de beber?

CF - Não sou xiita! Bebo muitas cervejas que não as minhas. Aliás, tem algumas que são a minha cenoura à frente do burro: marcas que despertam em mim aquela "inveja branca", a vontade de um dia fabricar produtos com semelhante qualidade e apelo para o consumidor. Para nos atermos às brasileiras, posso citar as cervejas da Eisenbahn (SC), Falke Bier (MG), Schmitt (RS), Baden Baden (SP), Bamberg (SP)... Na verdade, a lista seria interminável.

CdM - A fabricação personalizada de cervejas é um conceito que começa a ganhar seguidores. É uma aposta para continuar?

CF - Creio que seja um conceito para retornar! Já li em um livro que, nos EUA do início do século passado, antes da Lei Seca, era costume o conceito de "cervejeiro da família": assim como existia o médico da família, aquele especialista a quem se confiava a sua saúde, existia também a preferência de cada um por determinado cervejeiro e seus produtos. Eram tantos que, só no Brooklyn, podia-se contar mais de 30 cervejarias. Cada qual tinha a sua "mão", ou seja, o preparo carinhoso de seu produto, seguindo uma tendência particular de sabor e aroma, tal qual acontece com uma cozinheira caseira que se disponha a fazer um bolo: nunca haverá dois produtos idênticos. Isto fazia com que cada consumidor apreciasse uma cervejaria específica. Acho que hoje, com o amplo acesso a produtos do mundo inteiro, não há mais espaço para a fidelização absoluta neste setor. Mas cada consumidor ainda retém sua preferência relacionada ao seu paladar específico, e vai cada vez mais procurar produtos que atendam ao seu gosto, ao invés de se sujeitar a beber qualquer coisa disponível.

CdM - Em que locais é já possível degustar/comprar uma Fraga?

CF - Ainda não temos ponto de venda regular. Por enquanto, está disponível somente no bar da fábrica, cujo endereço é segredo de estado mantido apenas entre os amigos... Nossa previsão é de iníciar a distribuição no início de 2008.

CdM - Há algum estilo de cerveja que goste particularmente mas que considere que não tem viabilidade económica para ser produzido?

CF - Vários estilos de cerveja demandam um tempo de fabricação maior, seja por causa de fermentação secundária ou por um tempo de maturação muito maior do que o normal. De início, será inviável para nós manter um tanque de fermentação/maturação dedicado por muito tempo à fabricação de uma cerveja destas.

CdM - Quais os argumentos que utilizaria para convencer um consumidor a comprar uma cerveja artesanal em vez de uma industrial?

CF - Experiência sensorial! Só que a expressão é um tanto "arrogante". Acho que o desafio é traduzir isto para uma linguagem mais acessível, ou seja, convencer o consumidor comum de que a cerveja pode ser degustada, ao invés de simplemente bebida. Ou ainda, quebrar o paradigma e provar que cerveja também é bebida de harmonização gastronômica, a exemplo do vinho.

CdM - Que conselhos nos pode deixar para todos aqueles que se querem iniciar na produção de cerveja em casa?

CF - Não hesitem, começem logo! Eu perdi muito tempo com a parte acadêmica, tentando reunir o máximo de conhecimento necessário antes de iniciar a prática. Hoje percebo que não há como reunir todo o conhecimento possível nesta área, porque a própria experiência te traz novos horizontes a serem alcançados. Mesmo que ainda não tenha dominado a técnica, já surge uma nova possibilidade de melhoria. Mas isto não deve deixar de incentivar os iniciantes! Eu costumo dizer que, se você for no mínimo cuidadoso, a sua primeira cerveja caseira já será muito melhor do que a esmagadora maioria disponível nas prateleiras dos supermercados.

CdM - Seus desejos e planos para o futuro da Cerveja Fraga?

CF - Desejo que a Cervejaria Fraga seja reconhecida pelo trabalho sério e dedicação, que constituem um excelente caminho para a fabricação de produtos de qualidade, e que seja lembrada por aqueles que apreciam a cerveja com respeito e responsabilidade, como uma cervejaria com alma própria.

Para saberem mais sobre a Cervejaria Fraga, podem ir ao site da companhia clicando aqui.

                                                          

Obs: Foto obtida no site Edu Passarelli Recomenda.       

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