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CERVEJA: UM PRODUTO GLOBAL

Globalização. Uma palavra cada vez mais comum no nosso dia-a-dia mas ainda assim assustadora para muitos de nós. Alguns falam em “aldeia global” enquanto outros apontam o conceito como ponta-de-lança do avanço do neoliberalismo. Independentemente do ponto de vista que se possa ter, o certo é que esta é uma realidade cada vez mais actual e de carácter presumivelmente irreversível.

Perante esta lógica, não surpreenderá que certas marcas que associamos de imediato a um determinado país não sejam já, na sua essência, detidas por capitais desse mesmo país. Como exemplos, podemos dar o da famosa marca italiana de carros desportivos Lamborghini, que depois de ter passado por diversas mãos faz actualmente parte da AUDI, que por sua vez pertence ao grupo alemão Volkswagen; ou então da Seagram, outrora um gigante canadiano na área da produção de bebidas alcoólicas (e não só) que foi retalhada tendo a divisão de bebidas sido comprada pela francesa Pernod Ricard. Seriam inúmeros os exemplos que poderiam ser dados, mas encaminhemos a questão para o nosso tema de eleição, a cerveja. Pergunta-se então: até que ponto a globalização tem alterado a estrutura do mercado cervejeiro mundial? Verdadeiramente, os últimos dez a vinte anos tem sido frenéticos, ao ponto de algumas companhias não resistirem nas mãos dos mesmos donos por mais do que um ano.

Vejamos o caso daquela que é presentemente a maior empresa cervejeira a nível mundial, a Anheuser-Busch – InBev (AB InBev). As raízes desta companhia residem na Bélgica, resultantes da junção entre a flamenga Stella Artois e a Piedbouef, uma cervejeira da zona da Valónia. A sua fusão deu origem à Interbrew, cujos directores delinearam uma estratégia de crescimento extremamente agressiva, baseada em aquisições e fortes campanhas de marketing. O salto internacional ocorreu quando compraram a canadiana Labbatt, sendo que em 2004 se tornaram num dos maiores playmakers mundiais ao unirem-se à brasileira Ambev, dando assim origem à InBev. Curiosamente, a própria Ambev tinha nascido da fusão entre a Antarctica e a Brahma, duas das maiores marcas de cerveja do Brasil. Mas as coisas não ficariam por aqui. Depois de negociações muito difíceis e prolongadas, a InBev adquiriu, em 2008, a norte-americana Anheuser-Busch, uma das companhias mais tradicionais do país, surgindo então a AB InBev. Ficou confuso? É perfeitamente natural, ainda que tenhamos omitido muitas outras “pequenas” compras. Só para termos uma ideia do gigantismo desta companhia, refira-se que o seu portfolio inclui marcas como Budweiser, Stella Artois, Staropramen, Leffe, Hoegaarden, Michelob, Bud Light, Skol, Brahma, Quilmes, entre muitas outras. A empresa emprega cerca de 116 mil pessoas em mais de 30 países e estima-se que detenha 25% do mercado de cervejas mundial.

Mas a AB – InBev não é caso único, antes pelo contrário. A consolidação do mercado cervejeiro deixou cerca de 60% da capacidade de produção global sob o controlo de quatro companhias: a já mencionada AB – Inbev, a Heineken (Holanda), a SABMiller (África do Sul/Reino Unido) e a Carlsberg (Dinamarca). Entre as grandes, a SABMiller tem-se tornado num produto muito apetecível para os outros concorrentes, não só pelas suas marcas locais como também pela rede de distribuição que possui. Uma fusão com a Carlsberg poderia protegê-la de uma aquisição hostil mas são vários os entraves a este negócio, nomeadamente o facto da companhia dinamarquesa pretender ser o parceiro dominante numa possível junção. Ainda que as fusões e aquisições acabem por ter de parar, esse dia não parece próximo. Já este ano, a Heineken tornou-se a número 2 mundial ao adquirir a mexicana FEMSA, superando assim a rival SABMiller e abrindo uma porta de entrada no apetecível mercado latino-americano.


E Portugal? Será que o nosso mercado tem passado ao lado de todas estas movimentações? Não propriamente. Como é sabido, o mercado cervejeiro nacional vive numa situação de duopólio, com a existência de duas grandes companhias cervejeiras, a Unicer e a Central de Cervejas, cujas marcas âncora são respectivamente a Super Bock e a Sagres. Aliás, o fenómeno de concentração de empresas sempre foi muito comum nesta área específica de negócios. Basta para isso recordarmo-nos de que as origens da Unicer remontam à antiga Companhia União Fabril Portuense das Fábricas de Cerveja e Bebidas Refrigerantes (CUFP), resultante, por sua vez, da fusão de sete fábricas de cerveja, seis no Porto e uma em Ponte da Barca.

Com o 25 de Abril de 1974 muitas empresas foram nacionalizadas e reestruturadas, algo que modificou sobremaneira o panorama cervejeiro português. A 1 de Junho de 1977 o Conselho de Ministros de então decidiu criar duas empresas públicas para esta área: a Unicer - "União Cervejeira, E.P.", resultado da fusão da CUFP com a COPEJA (localizada em Santarém) e com a IMPERIAL (localizada em Loulé); e a “Centralcer – Central de Cervejas E.P.” englobando a Sociedade Central de Cervejas e a Cergal. Desde então, o aspecto geral do nosso mercado cervejeiro pouco se alterou, pelo menos se a análise se fizer de um ponto de vista superficial. Como veremos mais à frente, as alterações têm sido até bastante substanciais.

Pegando novamente no mercado internacional, vejamos alguns exemplos de como a globalização nos pode enganar relativamente à origem de uma cerveja. Analisemos a Cobra, uma cerveja comummente encontrada em restaurantes de comida indiana. Não será difícil acreditarmos que se trata de um produto tipicamente indiano e, na verdade, a cerveja chegou a ser produzida em Bangalore, na Índia, de 1990 a 1997. Todavia, a verdade é que a Cobra Beer é uma empresa inglesa, com sede em Fulham – Londres. O mentor é, de facto, de origem indiana mas todo o processo de criação e o próprio mercado target se situava na Europa, mais propriamente na Grã-Bretanha. Outros exemplos interessantes são os das supostamente mexicanas Salitos e Desperados, produzidas, respectivamente, pela alemã Krombacher e pela francesa Fischer (grupo Heineken).



Voltemos a Portugal. E, obviamente, a questão que agora se coloca é a de saber se as cervejas portuguesas, as nossas cervejas, já entraram neste jogo global. Como se percebe, seria quase impossível evitar que marcas tão apetecíveis como a Sagres e a Super Bock se mantivessem imunes a estas movimentações. Analisemos então cada uma destas companhias.

Relativamente à SCC, permitam-me que recorra não à sua verdadeira denominação comercial mas ao nome pela qual é mais conhecida pelos portugueses – Centralcer. Apesar da existência de outras modificações na constituição do capital accionista, o grande destaque vai naturalmente para o ano de 2003, altura em que o grupo Scottish & Newcastle adquiriu a totalidade das acções anteriormente pertencentes à Parfil, o que lhe permitiu passar a deter o controlo total da Sociedade Central de Cervejas e da Sociedade da Água de Luso. Este configuração não se manteria por muito tempo já que em 2007, após ter sido estabelecido um Consórcio entre a Heineken e a Carlsberg, teve lugar um processo de negociação tendo em vista a aquisição do grupo Scottish & Newcastle. Como resultado, em 2008 concretizou-se a compra, tendo a Heineken assumido o controlo da Centralcer.

Já no que concerne à Unicer, as alterações nos últimos anos não terão sido tão profundas como aconteceu com a Centralcer. Actualmente, a estrutura accionista da Unicer é composta pela VIACER (56%) e pelo Grupo Carlsberg (44%). Note-se que a gigante dinamarquesa Carlsberg é accionista de referência da empresa.

Uma palavra também para a excelente cerveja Tagus, marca do grupo Sumol+Compal, que tem como parceiro estratégico a holandesa Grolsch, empresa cervejeira fundada em 1615 em Groenlo – Holanda. Mas, mais uma vez, a concentração de mercados também aqui se fez sentir visto que a Grolsch faz parte, desde Março de 2008, do grupo SABMiller. Ou seja, três dos maiores grupos cervejeiros mundiais fazem já notar a sua presença, directa ou indirectamente, no mercado português.

Dito isto, poder-se-á considerar que este movimento global de fusões e aquisições foi benéfico ou prejudicial para o mercado nacional? Pessoalmente, acredito que foi essencialmente benéfico. Acima de tudo, o que se deve perceber é que as companhias portuguesas muito dificilmente poderiam ficar fechadas numa redoma e evitar os avanços das multinacionais. As empresas cervejeiras portuguesas têm uma forte implantação no mercado nacional, possuem boa imagem e elaboram um produto comercial de elevada qualidade. Logo, são extremamente atractivas para qualquer tipo de investidor. Para além do mais, as nossas empresas só têm a ganhar com o enorme know-how de companhias como a Carlsberg ou a Heineken. Veja-se este exemplo concreto: já há alguns anos que a Heineken tinha um barril de 5 litros com um sistema de tiragem especial que permitia servir cerveja à pressão na casa do próprio consumidor, tecnologia que foi utilizada pela Sagres para lançar o seu Barril 5L (DraughtKeg), um produto interessante e com muitas potencialidades. Trata-se de um bom aproveitamento das sinergias de grupo.

Embora possamos associar o fenómeno globalizante aos processos capitalistas de padronização, o certo é que o consumidor pode ganhar muito com esta linha de desenvolvimento. A manutenção de um custo estável da cerveja numa altura em que o preço dos cereais e do lúpulo disparou nos mercados internacionais, a garantia de uma qualidade uniforme e o recurso às tecnologias mais avançadas significam que a cerveja continuará a ser, por muitos anos, um produto de vanguarda e de grande aceitação a nível mundial. E mesmo quem procura uma maior variedade nada terá a recear. A existência de um mercado cada vez maior de produtos diferenciados, impulsionado pelo boom das microcervejarias em países como a Dinamarca, os E.U.A. ou o Brasil, leva ao preenchimento de nichos de mercado que assim verão satisfeitas as suas expectativas.

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