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happoshu: uma bebida de dar a volta... ao imposto

Nos últimos anos, a venda de cerveja no Japão tem sofrido uma forte quebra. Tal não se deve à diminuição do interesse dos japoneses por esta bebida ou ao facto de ter perdido subitamente qualidade. Tudo se resume ao aparecimento de um novo tipo de, digamos assim, quase-cerveja: o Happoshu. De facto, o Happoshu é uma bebida parecida com cerveja, com baixo teor de malte e muito popular junto dos consumidores devido ao seu preço ser substancialmente mais baixo do que o das cervejas normais. Esta diferença de preço explica-se pela existência de uma lacuna legal nas leis japonesas. O sistema de taxação sobre produtos alcoólicos deste país divide os produtos como a cerveja em 4 categorias diferentes, consoante o grau de malte que utilizem: 67% ou mais, 50 a 67%, 25 a 50% e menos de 25%. Deste modo, uma bebida alcoólica baseada em malte é classificada como cerveja quando o peso do extracto de malte exceda os 67% dos ingredientes fermentáveis.

     

Aproveitando esta definição, algumas companhias tornearam a lei, criando produtos com menos de 67% de malte. A primeira a fazê-lo foi a Suntory que, em Outubro de 1994, começou a comercializar uma Happoshu, neste caso contendo 65% de malte (relembro que esta percentagem se refere apenas à totalidade dos ingredientes fermentáveis; é óbvio que a água continua a ser o elemento mais importante desta bebida com 90 a 95% do total). A seguir a esta, outras empresas se seguiram sendo que, hoje em dia, existem dezenas de produtos semelhantes no mercado japonês, os quais dão particular ênfase ao aspecto, descurando as qualidades e o sabor do produto. Mas tal é pouco importante visto que, quem procura este tipo de bebidas, se preocupa mais com o preço do que com a qualidade. Após a Suntory, também a Sapporo, a Kirin e a Asahi criaram os seus Happoshu, sendo que alguns apresentam uma taxa de malte inferior a 25%! Isto é muito proveitoso em termos fiscais, já que se uma cerveja pode custar 220 yenes, uma lata de Happoshu do mesmo tamanho pode ser adquirida por 130. Tal é perfeitamente natural já que a taxa que recai sobre uma Happoshu a 25% é metade do valor que é colocado sobre uma cerveja. Deve-se ainda referir que estas Happoshu apresentam percentagens alcoólicas muito similares às cervejas, com valores a rondar os 4,5-5% ABV (alcohol by volume).

É claro que quem não gostou desta situação foi o governo japonês que, para além de se ver "fintado", perdeu uma apreciável fonte de receitas com a diminuição das vendas de cerveja. A reacção das autoridades, como seria de esperar, foi a de aumentar a taxa aplicada a produtos como o Happoshu. Essa actualização, realizada em 1996, foi particularmente pequena, não possibilitando um grande ganho em termos de competitividade por parte das cervejas. Entretanto, vários ministros das finanças japoneses tentaram subir novamente essas taxas mas, até agora, não tem sido possível fazer passar uma lei nesse sentido. A força dos consumidores e dos grandes produtores de cerveja/Happoshu têm impedido progressos nesse aspecto. Tal tem permitido o contínuo avanço das Happoshu que representam actualmente entre 30 a 40% do mecado combinado de cervejas/Happoshu, valor que não é negligenciável se considerarmos que o Japão é o 5º maior mercado de cervejas do mundo.

Independentemente destas indecisões, o governo japonês continua apostado em aproximar os valores que se taxam à Happoshu daqueles que são aplicados às cervejas. Isto levanta uma outra questão: ao tornar o preço das Happoshu próximo ou mesmo igual ao das cervejas, não se está a eliminar o seu único trunfo? Bom, eventualmente sim, mas deve-se dizer que a Happoshu é um produto difícil de defender. Para além de saber mal, viola claramente as leis internacionais de comércio. Com menos de 25% de conteúdo em malte, é natural que uma Happoshu seja bastante inferior a uma cerveja. Os aromas artificiais e outros ingredientes exóticos que as companhias adicionam para lhes dar um mínimo de carácter, são ainda insuficientes para as tornar em algo bebível. Para além do mais, a deflação dos preços resulta em grande pressão sobre as cervejas, sejam elas japonesas ou de outros países, facto que já levou ao encerramento de muitas micro-cervejarias do Japão (como por exemplo a Ginga Kogen Beer), quer por não poderem competir em termos de preços, quer por não quererem produzir Happoshu (acredito que a vergonha em produzir tal coisa seja o motivo maior).

Em termos pessoais, parece-me justa a aproximação do nível de taxação das Happoshu ao das cervejas. Apesar das companhias japonesas se oporem a esta alteração, argumentando que o Happoshu é um produto totalmente novo e que não foi feito para competir com a cerveja, tal não se coaduna com a realidade. De facto, se o incremento nas vendas desta bebida não tivessem afectado o mercado das cervejas, poder-se-ia, eventualmente, considerar que estávamos em presença de dois produtos completamente diferentes. Mas, com o mesmo "target" em termos de consumidores, com a mesma percentagem de álcool, com grande parte dos ingredientes idênticos, é difícil sustentar tal tese. É claro que se pode optar pelo movimento contrário, isto é, baixar a taxa que é aplicada à cervejas. Contudo, tal iria contra uma política de controlo do consumo de bebidas alcoólicas, assim como parece algo de inviável no momento económico instável por que passa o Japão.

Em termos de marcas e como já mencionei, existe uma grande diversidade de tendências e variações. Em defesa dos seus interesses, as companhias cervejeiras uniram-se e criaram um site onde se divulga e defende o conceito do Happoshu. Tal página é visitável em http://www.happoshu.com (só em japonês). Os produtos mais conhecidos são:

  • Asahi: Honnama Aqua Blue; Honnama Red; Mugikaorutoki.
  • Kirin: Tanrei; Enjuku; Tanrei Green Label; Namakuro; Honey Brown.
  • Sapporo: Shizuku; Namashibori; Slims; Reijou.
  • Suntory: Jokki (Jug Nama); Akinama; Super Blue.

Falta, por fim, encontrar uma verdadeira definição para o Happoshu já que, como facilmente se percebe, chamar cerveja a esta bebida chega a ser um crime mesmo para as marcas de cerveja com menos qualidade que existem no mercado. O Happoshu, será assim, uma bebida alcoólica gasosa de baixo teor de malte. É um produto desinteressante, aguado, com muitos sabores artificiais e cujo único e verdadeiro trunfo é o preço. Cientes disso, as companhias japoneses produzem cada vez mais bebidas sem carácter já que, sendo o custo da bebida o mais importante, não existe uma grande fidelidade por parte dos consumidores a uma determinada marca. Quem apresentar o preço mais baixo terá maior sucesso. Espera-se que, ao contrário de muitas outras invenções interessantes e úteis originárias do país do sol nascente, esta se matenha por largos anos confinada às ilhas que constituem o fascinante país que é o Japão.

Publicado a 28/04/2007

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