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SELO PROTECTOR Nas LATAS

Desde o início de 2011 é possível adquirir latas de cerveja Sagres com um selo protector, isto é, com uma cobertura de película de alumínio no topo da lata. Como se refere em reportagem do site Imagens de Marca, de 31/01/2011, "O novo “selo” apresenta material 100% reciclável e traduz-se em duas novas funcionalidades: protecção da abertura da lata e um novo suporte de comunicação." Na mesma publicação o Presidente da Central de Cervejas, Alberto da Ponte, comenta: "não é uma inovação daquelas de arromba, mas é uma inovação interessante porque é a primeira vez que no mercado português – nas latas que é um segmento que está em crescendo, curiosamente, é um segmento no mercado das cervejas que está em franco crescimento – que nós temos um selo protector. Muitos acidentes em lata tem ocorrido porque as pessoas bebem e a parte da lata está suja isto é algo que é uma inovação de segurança de higiene, como só uma marca líder pode fazer”.

Como bem refere o presidente da Centralcer, esta não é uma descoberta fantástica ou uma novidade mundial. Outras empresas, nomeadamente cervejeiras, já adoptaram esse sistema. No Brasil, por exemplo, este selo protector é já utilizado há alguns anos pela Petrópolis, companhia que produz, entre outras, as marcas  Itaipava, Crystal, Petra e Lokal. Posteriormente, foi a vez da Schincariol adoptar essa inovação e mais recentemente a Ambev.

Não foi inocentemente que escolhi o mercado brasileiro para dar o exemplo referido. De facto, no Brasil a questão do selo protector tem dado muito que falar, com inúmeros processos em tribunal, troca de acusações e algumas intervenções nem sempre esclarecedoras das autoridades de saúde e de defesa do consumidor.

Em 2009, as cervejarias Petrópolis e Schincariol foram multadas pela Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) do Estado de São Paulo em 610.986,67 reais cada uma por propaganda enganosa e publicidade abusiva. Essa multa foi aplicada, segundo o Procon, por induzirem os consumidores em erro ao veicularem que o selo protector traz mais higiene e qualidade ao produto comercializado. Conforme se pode ler no site JurisWay, "O Procon cita, nos autos de infração, com data de 31 de julho, estudos realizados pelo Centro de Tecnologia da Embalagem do Instituto de Tecnologia de Alimentos que, ao analisar latas sem o selo de proteção e compará-las com as das cervejarias, a quantidade de coliformes fecais encontrados nas latas com a proteção seria muito maior que nas latas sem o selo. Além disso, análises feitas pelos Laboratórios de Micologia do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo indicam que os lacres não impediram o crescimento de bactérias e fungos nas latas".

Na verdade, quer a Petrópolis, quer a Schincariol, recorreram da decisão e, em outras instâncias, têm ganho e perdido processos. Há até uma interessante decisão judicial sobre o assunto que pode ser lida no site Consultor Jurídico. Não obstante, não deixa de ser curioso que a própria Schincariol tenha defendido, em nota divulgada à imprensa, que a adopção de selos de alumínio  nas latas de cerveja, foi feita "com base em estudos técnicos emitidos por instituição de pesquisa renomada, demonstrando que o invólucro acarreta proteção adicional, reduzindo o risco de contaminação por sujidades e agentes externos transmissores de doenças". "Além disso", diz a nota, "o grupo orienta o consumidor a sempre higienizar (lavar com água) a lata antes do consumo." Não deixa de ser muito curiosa e relevante esta frase final.

Ainda que judicialmente esta questão da bondade, ou não, da utilização do lacre de protecção ainda não tenha sido dirimida, tal não impede que novas empresas brasileiras tenham adoptado o sistema. É o que se pode ler nesta notícia do site PromoView, de 1 de Março de 2011, onde também se aborda o arrastar das decisões sobre o tema nos tribunais.

Em Portugal, e como se referiu, a Sagres foi a primeira a utilizar este novo elemento nas latas. Para já, e daquilo que me é dado a conhecer, ainda não há nenhuma querela sobre a necessidade/utilidade do selo protector. Desconheço também qualquer tipo de estudo que tenha sido feito por uma entidade independente que avalize uma melhoria nas condições de higiene para o consumidor em função da existência desse lacre. Sublinho que desconheço, não quer dizer que não exista. A informação não é muita mas podem ver a novidade no próprio site da Sagres.

Conclusão: trata-se de uma inovação positiva, neutra ou negativa? Sinceramente não bebo muita cerveja em lata e, sempre que o faço, tendo a limpar o topo da lata com água (quente, de preferência) ou um papel. Ainda assim, nos últimos anos não tive conhecimento de casos de pessoas que tenham bebido algo a partir de lata e que tenham, por isso, sido contaminadas com algum vírus ou bactéria. A esse propósito será interessante ler um artigo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade. Creio pois tratar-se mais de uma medida preventiva (em termos de saúde) e comunicacional do que outra coisa. De um ponto de vista estritamente pessoal investiria os cerca de meio milhão de euros que custou esta inovação noutra área. Eventualmente a criar e lançar uma IPA no mercado; ou uma Barley Wine. Mas isso sou eu, que não tenho que gerir uma companhia líder de mercado.

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