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Vintage ales

Um destes dias, um visitante do nosso site colocou-me, via e-mail, uma questão bem interessante. Vou citá-lo quase na íntegra: "Quero saber um pouco da história das vintage, elas devem ser muito especiais, pois tem até indicação de safra, como a Deus Brut ou a Gran Cru Bruocsela. Nunca as experimentei, e aqui no Brasil elas custam muito caro de 40 € a 100 € (...) Como são produzidas, se com cevada e lúpulo ou com trigo?"

Como se trata de uma questão extremamente interessante e que me é colocada com alguma frequência, eis a resposta que lhe dei, ligeiramente adaptada para não ficar em discurso directo.

As duas cervejas mencionadas na questão são, de facto, excepcionais para guardar numa boa adega, à espera que envelheçam condignamente, na esperança de arranjarmos uma boa desculpa ou até uma ocasião especial para as experimentarmos.

                    

No entanto, pertencem a estilos bem distintos, já que a DeuS é quase uma Strong Ale ao estilo belga, mas com uns tiques especiais (já que é elaborada próximo do método champanhês, com a garrafa invertida, liberação da levedura e novo enrolhamento), enquanto que a Cantillon Bruocsella é uma Lambic-Unblended, ou seja, uma lambic sem misturas, por contraponto às lambic-gueuze, onde se misturam lambics novas e velhas.

Pessoalmente, sou um grande apreciador da Cantillon mas já não tanto da DeuS. Esta última tem uma garrafa muito bonita, é de facto um produto diferente (pode-se mesmo considerá-la criadora de um estilo de cerveja: a bière de champagne) mas parece-me ter mais fama do que qualidade e é muito cara! É uma opinião pessoal, claro! Já a Cantilon considero fabulosa! Aliás, fica ao nível de quase todos os produtos desta pequena cervejeira belga, que faz elixires de grande qualidade.

Voltando à questão das vintage ale, pode-se dizer que é uma designação muito genérica pois qualquer cerveja que tenha capacidade de envelhecimento se pode tornar numa vintage ale. É claro que se tiver forte teor de álcool, ou de lúpulo, ou de ambas as coisas, a longevidade é mais segura.

De facto, esta tradição de guardar cervejas data já de tempos ancestrais. Por exemplo, quando os holandeses e ingleses lutavam pela supremacia marítima, durante o século XVI e XVII, fazia-se uma cerveja bem forte em álcool capaz de suportar os longos períodos em alto mar. Designava-se essa cerveja por "provision beer", nome que ainda hoje é utilizado por certas cervejarias. Temos, como exemplo, a excelente Liefmans Goudenband Provision Beer, uma cerveja com 8% ABV e capaz de ficar numa boa adega a envelhecer durante alguns anos.

Há também o caso de uma cerveja que só é produzida uma vez por ano, no dia 6 de Dezembro e que, quando bebida nova, pode tornar-se desagradável, dado o forte carácter a álcool e sabor muito adocicado. No entanto, após alguns anos a envelhecer, torna-se num néctar dos deuses. Trata-se da Samichlaus Bier, uma cerveja com 14% de volume alcoólico, produzida pela austríaca Schloss Eggenberg mas que já foi feita na Suiça pela Hurlimann. Uma cerveja com tudo, ao género de uma Doppelbock.

Devemos, no entanto, estar alertados para o facto de quase todas as cervejas, em especial as Lager, serem feitas para que o seu consumo se processe num curto espaço de tempo. Como diz um dos maiores gurus de cerveja, o "Beer Hunter" Michael Jackson: "se você gosta de cerveja, faça-lhe um favor e bebe-a enquanto ela é nova. A cerveja não foi feita para envelhecer". Se quase tudo o que é dito nesta frase é verdade e nada exagerado, também não é mentira que existem cervejas que podem melhorar com o decorrer do tempo, em especial aquelas cervejas fortes como as Winter Ale, as Trapistas (Orval, Rochefort, Chimay, Westvleteren, etc), as Barley Wine e algumas Stout (principalmente as Imperial Stout). Outro factor importante para o correcto envelhecimento de uma cerveja é o local onde a guardamos e a forma como a garrafa é manuseada. Ela deve ser armazenada num local seco e escuro, com temperaturas a rondar os 12-14 graus, temperaturas indicadas para as leveduras vivas que ainda existam na garrafa (sim, porque a maior parte destas cervejas sofre uma segunda fermentação em garrafa). Todo o cuidado a manuseá-las é pouco.

Como se pode ver, há muitos estilos diferentes de cerveja que se podem tornar em vintage ales. Respondendo a outra parte da questão, o malte de cevada e lúpulo entram quase sempre na sua composição. As cervejas de trigo, sejam elas do estilo American Wheat, Weizen alemãs ou Witbiers belgas são cervejas para serem consumidas enquanto a bebida é nova. Muito dificilmente dão para guardar. Algumas Ales têm trigo na sua composição, pois é um ingrediente que ajuda na beleza e estabilidade da espuma mas é sempre numa percentagem reduzida da totalidade de cereal utilizado.

           

Para terminar, aqui fica uma lista de cervejas que costumam envelhecer bastante bem: Sierra Nevada Celebration Ale, Bell's Expedition Stout, New Belgium Abbey Grand Cru, Boon Gueuze, Chimay Grand Reserve, Dogfish Head Immort Ale, Gale's Old Ale, Samuel Adams Triple Bock.

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